Vieira, Padre António (1608-1697)

Nasce em Lisboa, de família humilde. Uma avó mulata. Parte para o Brasil com seis anos de idade. Torna-se jesuíta. Volta a Lisboa em 1641, assumindo-se como o orador oficial da Restauração no ano de 1642. Em 1646 é enviado a França e às províncias Unidas. Em 1647-1648 volta às Províncias Unidas e é enviado a Roma.
Logo a partir de 1643 tenta defender a causa dos cristãos novos e revolta-se contra a Inquisição, a que chama a Fortaleza do Rosssio. Volta ao Brasil em 1653, começando a escrever Esperanças de Portugal. Forçado a regressar a Lisboa em 1661. Interrogado pelo Santo Ofício em 1663, preso em 1665, apenas vem a ser libertado depois da subida ao poder de D. Pedro II. Ainda é enviado em nova missão a Roma.
Em História do Futuro. Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, vem falar para o mundo inteiro para tudo o que abraça o mar, tudo o que alumia o Sol, tudo o que cobre e rodeia o Céu, porque esse mundo real ( o mundo de que falo é o mundoserá sujeito a este Quinto Império, não por nome ou título fantástico, como todos os que agora se chamaram Impérios do Mundo, senão por domínio e sujeição verdadeira. Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as Coroas se rematarão em um só diadema, e esta será a peanha da Cruz de Cristo. Um Império que não promete mundos nem impérios titulares, nomes tão alheios da modéstia como da verdade, mas que, contudo, é um Império da Terra e na terra… é império da Terra e não do Céu, e que na terra e não no céu há-de ser lida a sua grandeza. É um domínio soberano e supremo sobre todos os homens, sobre todos os reis, sobre todas as coisas criadas, para poder dispor delas conforme o seu arbítrio, dando e tirando reinos, fazendo e desfazendo leis, castigando e premiando com jurisdição tão própria e directa sobre todo o mundo como a que os reis particulares têm sobre os seus vassalos e reinos, ou melhor, com muito maior, mais perfeito e mais excelente domínio, não dependente como o deles, das criaturas, senão absoluto, soberano, sublime e independente de todos.
Contrariamente à utopia de uma ilha sem lugar, de uma cidade do sol muralhada ou da própria ucronia, o futuro de António Vieira nasce a esperança do presente, do zelo da liberdade e da luta pela pátria. O seu fim é o Império de Cristo, não sujeito às mudanças e inconstâncias do tempo e que também não recebe a grandeza e majestade da pompa e aparato, é o Quinto e último, o supremo poder do poder dos sem poder. Abarca o mundo inteiro. É Quinto Império não por nome ou título fantástico, como todos os que até agora se chamaram Impérios do Mundo, senão por domínio e sujeição verdadeiros. Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão num só diadema, e esta será a peanha da Cruz de Cristo. Diverge, por exemplo, das possessões do Imperador da Alemanha, envelhecidas relíquias e quase acabadas do Romano, porque os textos podem dar títulos, mas não império… os impérios e reinos não os dá nem os defende a espada da justiça, senão a justiça da espada. Como também escreve D. João de Castro, fará a paz em todo o mundo: a qual durara muitos anos, em que viviram com grande descanso, repouso & summa prosperidade os mortaes. Fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os falsos profetas que o seguem.
Interpretando tal passagem, o Padre António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da Igreja do Quinto Império, onde se descreve a maneira da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado. Tratar-se-ia da procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo.

Bibliografia

Sermão pelo Bom Sucesso das Nossas Armas, 1643