Teoria

hannah arendtSegundo a perspetiva neoclássica de Hannah Arendt (na imagem) é um sistema de verdades razoavelmente reunidas. Tem a ver com a ideia de verdade, como a entendiam os escolásticos, no sentido de conformidade ou adequação do pensamento a uma ação, tendo como linguagem a lógica e como estilo a dialética, como expressa Cabral de Moncada. Assim, sendo um sistema de verdades, tem de obedecer à quele mínimo epistemológico clássico que impõe a substituição das opiniões acerca de todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas. Logo, como refere Jürgen Habermas, teorizar implica que se assuma a necessária contemplação do cosmos, da ordem imortal, onde quem pensa tem de assemelhar-se à medida do cosmos, de, em si mesmo, o reproduzir, pelo ajustamento da alma ao movimento ordenado do cosmos, pelo ajustamento mimético da alma à s aparentemente contempladas proporções do universo. Impõe assim o conhecimento contemplativo da ordem essencial do mundo, impondo-se o estado do bios theoretikos, do spoudaios, do homem sério e maduro. O teórico, segundo a lição de Aristóteles, tem de assumir aquele estado de espírito que apenas pode ser atingido pelos que tentam pensar de modo racional e justo. Isto é, usando palavras de Eric Voegelin, o teórico, deve ao menos ser capaz de reproduzir imaginativamente as experiências que a sua teoria busca explicar. Em segundo lugar, a teoria como explicação só é inteligível para aqueles em que a explicação desperte experiências paralelas como base empírica para testar a base da teoria. Porque uma teoria não é apenas a emissão de uma opinião a respeito da existência humana em sociedade é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de uma género definido de experiências. Aliás, segundo Ortega y Gasset, o tal bios theoretikos equivale àquilo que os romanos qualificaram como vita contemplativa, a que corresponde o nosso peninsular ensimesmamento. Uma fase que se sucede à quele momento em que o homem sente-se perdido, naufragado nas coisas, pelo que, com enérgico esforço, recolhe-se à sua intimidade para formar ideias sobre as coisas e seu possível domínio. Só que não fica por aí, porque há sempre um momento mais complexo e mais denso, quando o homem torna a submergir no mundo para atuar nele conforme um plano pré-concebido; é a ação, a vida ativa, a “praxis”. E não se pode falar de ação senão na medida em que esteja regida por uma prévia contemplação; e vice-versa, o ensimesmamento não é senão uma projetar a ação futura, pelo que o destino do homem é, portanto, primariamente a ação. Não vivemos para pensar, mas ao contrário: pensamos para conseguir per viver. Com efeito, entre a chamada teoria e a chamada prática, cabe ao pensamento e à vivência tornar tudo teoricamente prático e praticamente teórico, nomeadamente pelo sentido crítico daquela demonstração que leva a considerarmos que, na prática, a teoria é outra, quando se dá a falta de autenticidade, isto é, quando se nota uma distância entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica, ou, por outras palavras, quando não se vive como se pensa. Neste sentido, a teoria, enquanto contemplação, não pode conduzir a um estar aqui de modo passivo e acrítico, à espera de quem me teorize o onde estou. Há sempre que aperfeiçoar o que está em nome do que deve-ser. Que pensar o que deve-ser tendo em vista o que está. Procurar estar aqui para poder seguir no sentido daquele mais além que não só está mais acima como mais por dentro, conforme o lema de Teilhard de Chardin. Isto é, importa procurar o mais além dentro das próprias coisas, dentro de nós, e dentro do nós que formamos com os outros. Mais: subjetivizarmos as normas, subjetivizarmos a objetividade, dando dever-ser ao ser, libertando-nos da alienação e semeando autonomia na heteronomia. Neste sentido, como salienta Moncada a ideia não é já senão o facto em gérmen, como este não é senão a ideia coagulada. E não proclama Fernando Pessoa que toda a teoria deve ser feita para ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria? Aliás, segundo o mesmo autor, o preceito moral, para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece um certo limite, e o preceito prático, para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece uma certa regra.