Sociedade Global

A procura do conceito de sociedade global.

Marcel Mauss e o fenómeno social total: a sociedade como totalidade articulada e complexa. A perspetiva de Gurvitch: o carácter pluridimensional da realidade social e a teoria da sociedade global, com a necessidade de quatro soberanias: social, económica, jurídica e política.

A tese de Jean-William Lapierre (a sociedade global como um vasto fenómeno social total, um conjunto concreto e singular de pessoas e grupos no qual todas as categorias de atividades são exercidas e mais ou menos integradas). A vulgarização de Maurice Duverger. O Estado-Nação como sociedade global. Da relação social à estrutura social. A diferenciação social, a organização dinâmica da estrutura e o respetivo aspeto social (Radcliffe-Brown).

A ideia remonta a Marcel Mauss (1872-1950), a quem cabe a descoberta do facto ou fenómeno social total, considerado como uma totalidade concreta, simultaneamente, jurídica, económica, religiosa e estética, onde a mesma pessoa pode desempenhar vários papéis sociais. Esta ideia vai, depois, ser adotada por uma série de autores que tentaram conciliar a herança darwinista com o mais recente desenvolvimentismo.

A teoria sistémica, no âmbito da sociologia e da politologia francesas, concilia-se com a ideia de social total que, no dizer de Georges Gurvitch (1894-1965), ultrapassaria os agrupamentos funcionais e as classes sociais. Uma sociedade global que, segundo o mesmo autor, seria um macrocosmos de macrocosmos sociais, assumindo, na maior parte dos casos, grande envergadura, sendo dotada de uma quádrupla soberania: social, económica, jurídica e política, porque uma sociedade global afirma a sua especificidade e a sua diferença relativamente a uma outra sociedade global a todos os níveis (… )

Ao nível político, exerce de facto e de direito o poder de administrar os grupos e os indivíduos que a compõem; ao nível jurídico, apresenta-se como a fonte do direito, que fixa o que é permitido e o que é proibido, e organiza os diversos tipos de relações e de contratos (sistemas de parentesco, contratos de propriedade, etc. ); ao nível económico, organiza a produção, a circulação e o consumo de bens; ao nível cultural, é o foco criador dos modelos de comportamento dominantes e a organizadora dos seus modos de transmissão.

Marcel Mauss (1872-1950), a quem cabe a descoberta do facto ou fenómeno social total, considerado como uma totalidade concreta, simultaneamente jurídica, económica, religiosa e estética, em que a mesma pessoa pode desempenhar vários papéis sociais. Esta ideia será, depois, adotada por uma série de autores que tentaram desenvolvimentismo.

Gurvitch, neste sentido, elenca a sucessão histórica das várias sociedades globais: teocracias carismáticas, sociedades ditas patriarcais, sociedades feudais, sociedades globais onde predominam as cidades-estados tornando-se impérios, sociedades globais onde se manifestaram os alvores do capitalismo e o absolutismo dito esclarecido, e a Jean-William Lapierre, uma sociedade global pode ser considerada como um vasto fenómeno social total. Entende por tal um conjunto concreto e singular de pessoas e de grupos no qual todas as categorias de atividade são exercidas e mais ou menos integradas.

Trata-se do mesmo conceito que, no século XVII, se exprimia por sociedade civil e corpo político e que significa o mesmo que o inglês polity ou com aquilo que os marxistas entendem por formação social. Segundo o mesmo autor, haveria cinco sistemas principais de sociedade global: sistema biosocial ou sóciogenético, parentesco, segundo Claude Lévi-Strauss; sistema ecológico ou sociogeográfico; sistema económico ou de comunicação de bens e serviços; sistema cultural ou de comunicação de mensagens; sistema político. Esta visão da sociedade global desaguou na perspetiva de Maurice Duverger, para quem a sociedade global implica uma cultura e um carácter nacional, exigindo três elementos: articulação dos diversos grupos humanos; forte integração dos mesmos, de modo a gerar uma solidariedade profunda; uma intensidade superior à da solidariedade grupal.

Duverger tomava como ponto de chegada o atual Estado-Nação e como paradigma a nation par excelence, que por acaso também é a sua. Mas não deixava de estabelecer o quadro evolutivo das diversas sociedades globais: a tribo, a cidade antiga, o domínio senhorial feudal, a monarquia absoluta e, finalmente, o Estado-nação, com os diversos modelos do século: Estado liberal-capitalista, Estado fascista, etc.

Neste sentido, Lapierre considerava o Estado como um aparelho ou organização dotado de uma legitimação através de leis, com uma determinada

Concordava, aliás, com Nicos Poulantzas (1936-1979) quando este atribuía ao Estado uma função global de coesão e considerava que o mesmo possui esta função particular de constituir o fator de coesão dos níveis de uma formação social, acentuando, no entanto, que numa perspetiva antropológica esta função não é específica da forma histórica particular do poder político que é o Estado. Ela define todo o poder político, incluindo o das sociedades cujo modo de organização política não comporta qualquer aparelho de Estado especializado nesta função.