Simbolismo Político

straussComo salienta Lévi-Strauss (na imagem), os factos sociais são, ao mesmo tempo, coisas e representações pelo que a sociologia não pode explicar a génese do pensamento simbólico; deve tomá-la como se fosse dada. De facto, é o pensamento simbólico que torna a vida social ao mesmo tempo possível e necessária dado que os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam até porque o significante precede e determina o significado. Como justamente observa Paul Ricoeur, toda a razão tem um horizonte sobredeterminado pela crença, havendo um ponto, onde o racional comunica com o mítico, donde deriva toda uma constituição simbólica do laço social. Com efeito, toda a ética que se dirige à vontade para a lançar no agir deve ser subordinada a uma poética que abre novas dimensões à nossa imaginação. Também Eric Voegelin assinala que a sociedade é iluminada por um complexo simbolismo, com vários graus de compactude e diferenciação — desde o rito, passando pelo mito, até à teoria — e esse simbolismo a ilumina com um significado na medida em que os símbolos tornam transparentes ao mistério da existência humana a estrutura interna desse pequeno mundo, as relações entre os seus membros e grupos de membros, assim como a sua existência como um todo. A auto iluminação da sociedade através dos símbolos é parte integrante da realidade social, e pode mesmo dizer-se que é uma parte essencial dela, porque através dessa simbolização os membros da sociedade a vivenciam como algo mais que um acidente ou uma convivência; vivenciam-na como pertencendo a sua essência humana. Mais recentemente, Edgar Morin considera que não podemos fugir ao mito, mas podemos reconhecer a sua natureza de mitos e relacionar-nos com eles, simultaneamente por dentro e por fora. Porque o problema consiste em reconhecer nos mitos a sua realidade e não a realidade. Em reconhecer a sua verdade e não em reconhecer neles a verdade. Em não introduzir neles o absoluto. Em ver o poder de ilusão que segregam constantemente e que pode ocultar a sua verdade. Devemos desmitificar o mito, mas não fazer da desmitificação um mito. Como salienta Georges Burdeau, o mundo político é da mesma natureza que o universo poético, dado que é povoado por crenças, convenções e símbolos. E isto porque se o político é o reflexo de uma imagem que a sociedade faz de si mesma, concebe-se facilmente que ele seja solidário de símbolos e de mitos que sustentam esta representação.