Revolta da Vilafrancada

Em 27 de Maio, Vilafrancada. Regimento de Infantaria 23 que havia sido transferido de Lisboa para Almeida, detém-se em Vila Franca e começa a vitoriar o rei absoluto. D. Miguel, instigado por D. Carlota Joaquina, junta-se aos revoltosos.

As Cortes afastam o general Bernardo Sepúlveda das funções de governador de armas de Lisboa.

Começam a desertar de Lisboa para Vila Franca várias guarnições. Fala-se que os revoltosos se dirigirão a Almeida, para se juntarem às tropas do conde de Amarante[1].  Em Lisboa fica apenas a Infantaria 18, de guarda ao palácio da Bemposta.

Em 30 de Maio, o regimento de Infantaria 18, comandado por Jorge Avilez Juzarte, de guarda ao palácio da Bemposta manifesta-se pelo rei absoluto e maltrata vários liberais.

O rei tinha então a acompanhá-lo Mouzinho da Silveira, ministro da fazenda, e José Máximo Rangel, ministro da guerra. Aqui emite uma primeira proclamação, escrita por José António Guerreiro, criticando D. Miguel.

Não tarda de fuja da Bemposta para Queluz. Aqui vários soldados e uma centena de populares arrancam do monarca o laço constitucional e dão vivas ao rei absoluto.

A conselho do marquês de Loulé, D. João VI dirige-se então para Vila Franca., acompanhado pelo marquês de Loulé e por Mouzinho da Silveira.

Param na Póvoa e é emitida uma segunda proclamação, redigida por Pinto Pizarro, futuro barão da Ribeira de Sabrosa, onde se determina reformas constitucionais[2]. Segundo Fronteira, a notícia desta proclamação foi um raio que caiu em Vila Franca e Santarém[3]

Pamplona está com Miguel em Santarém. Saldanha e Taipa estão em Vila Franca.

Chegado a Vila Franca o rei chama D. Miguel, que tinha o seu quartel-general em Santarém. D. Miguel aceita submeter-se e é nomeado generalíssimo. É então emitida uma terceira declaração, escrita agora por Joaquim Pedro Gomes de Oliveira

Uns ficam em Vila Franca, com D. João VI e os moderados. Outros em Santarém, com D. Miguel e os rainhistas.  Como então reconhecia nas agonizantes Cortes vintistas o deputado Ferreira de Moura, o poder militar, o rei, a Nação, os seus representantes, são os quatro interlocutores desta peça célebre. O poder militar diz que deve ser modificada a Constituição. El-rei, vendo-se desamparado da força, e supondo haver uma variação na vontade nacional, pareceu-lhe inclinar-se à maioria desta vontade pondo-se da parte do poder militar; e neste sentido outra vez reconheceu que na vontade da Nação está a soberania.

O rei que não quis ser Nero, mas Tito, conforme a alternativa que lhe fora posta por Mouzinho da Silveira que o acompanhou, e decidiu-se pelo meio termo da proclamação de 31 de Maio que apareceu afixada nas ruas de Lisboa e terá sido inspirada pelo mesmo Mouzinho da Silveira e pelo futuro radical antipedrista e futuro ordeiro, Rodrigo Pinto Pizarro: a salvação dos povos é sempre uma lei suprema, e para mim uma lei sagrada: esta convicção que há sido o meu farol nos arriscados lances em que a Providência me tem colocado, ditou imperiosamente a resolução que tomei ontem, com mágoa minha, de separar-me de vós por alguns dias, cedendo aos rogos do povo, e aos desejos do exército, que me acompanha ou me precede… A experiência, esta sábia mestra dos povos e dos governos, tem demonstrado, de um modo bem doloroso para mim e funesto para a nação, que as instituições existentes são incompatíveis com a vontade, usos e persuasões da maior parte da monarquia… é mister modificar a constituição: se ela tivesse feito a ventura da nação, eu continuaria a ser o seu primeiro gabinete; mas quando a maioria de um povo se declara tão aberta e hostilmente contra as suas instituições, estas instituições carecem de reforma. Cidadãos: eu não quero nem desejarei nunca o poder absoluto, e hoje mesmo o repito: os sentimentos do meu coração repugnam ao despotismo e à opressão: desejo sim a paz, a honra e a prosperidade da nação… não receeis por vossas liberdades; elas serão garantidas por um modo, segurando a dignidade da coroa, que respeite e mantenha os direitos dos cidadãos[4].

Segue-se, no dia 1 de Junho, um novo governo onde tenta conciliar-se a moderação pró-britânica de Palmela, com a moderação pró-francesa de Pamplona (Subserra), firmada numa outra proclamação, provinda da pena de Joaquim Gomes de Oliveira, o avô de Oliveira Martins



[1] Damião Peres, p. 6

[2] Fronteira, II, pp. 324-325

[3] Fronteira, II, p. 336.

[4] Luz Soriano, História da Guerra Civil, 6º, pp. 472-473.