Osório, D. Jerónimo (1514-1580)

D. Jerónimo OsórioO chamado Cícero português. Estuda em Paris, onde contata com Santo Inácio de Loiola, e Bolonha e professor em Coimbra. Bispo de Silves desde 1564 e depois do Algarve desde 1577.

Escreve uma obra fundamental, De regis institutione et disciplina, publicada no mesmo ano da primeira edição de Os Lusíadas, em 1572, que influencia o tratado homólogo de Juan Mariana e tem sucessivas edições em Colónia, 1572, 1574 e 1614, e Paris, 1583, sendo considerada um dos principais livros do Renascimento.

É autor de outras obras como De Nobilitate Civile, de 1542, De Nobilitate Christiana, também de 1542, onde discute as ideias de Maquiavel, De Gloria, de 1549, De Justitia, de 1564, e De Vera Sapientia, de 1578. Importa também referir o respetivo epistolário político, destacando-se duas cartas que constituem um corajoso libelo contra a governação de D. Sebastião, uma a propósito do casamento do rei, outra criticando a jornada que vai conduzir ao desastre de Alcácer.

Do mesmo autor, importa referir o respetivo epistolário político, destacando-se duas cartas que constituem um corajoso libelo contra a governação de D. Sebastião, uma a propósito do casamento do rei, outra criticando a jornada que vai conduzir ao desastre de Alcácer. Na primeira apela mesmo à hipótese de tirania: muitas diferenças assinam os filósofos entre tiranos e reis; mas eu cuido que uma só basta, que é vontade e razão; porque a vontade por si sem obediência de entendimento é desconcerto de tirania, e a mais certa entrada do inferno que sabemos, e a boa razão é natural e divina: pelo que com muito fundamento, se virmos um homem fazer milagres e juntamente soubermos um que é voluntário, podemos determinar que não é justo nem virtuoso, e que os milagres são falsos, como de Anti-Cristo. Pelo contrário, quando pusermos os olhos em homem afeiçoado a seu parecer próprio e que facilmente segue a razão dos outros, quando é melhor que a sua, podemos presumir que este tal não somente governa bem a si mesmo, mas a Impérios muito grandes. 

Aí se considera também que enquanto não temos Revelação Divina do contrário, obrigados somos a seguir a razão. Quem tiver espírito de profecia sai a campo e dêsinais, que nos mostre ser ele profeta verdadeiro, e diga a grandes vozes: Haec dixit Dominus Deus; quem isto não fizer, e sem Revelação insistir em contrariar tantas e tão evidentes razões dê-nos licença que o tenhamos por protervo e voluntário, e não por espiritual e prudente; mas bem cuido, que ninguém será de contrário parecer. Noutra carta, contrariando a jornada de África, começa assim: se eu fosse Procurador da Coroa, e tivesse algum feito nas mãos em que V. A. fosse Reo, e fosse necessario darlhe razão delle, forçado seria primeiro o libello que a contrariedade, o que nesta Carta farey com a verdade e a lealdade que devo (…) .

Depois, conclui o libelo da seguinte forma: Dizem os prudentes que o ofício de bom Rei mais consiste em defender os seus do que em ofender os inimigos, e tanto isto é verdade, que nenhuma glória ganharam príncipes ilustres nas vitórias havidas contra seus inimigos, se delas não resultasse a seguridade de seus vassalos.

Bibliografia

De Nobilitate Civile, Bolonha, 1542

De Nobilitate Christiana, Bolonha, 1542

De Gloria, 1549

De Justitia, Colónia, 1564

De Regis Institutione et Disciplina, Lib. VIII, Lisboa, 1572 cfr. trad. port. de António Jotta da Cruz Figueiredo, pref. de Luís de Almeida Braga, Da Instituição Real e sua Disciplina, Lisboa, Pro Domo, 1944-1945

Cartas Portuguesas, 1506 - 1580 publicadas em 1819