Mensário Português de 1930

Janeiro

Dia 4 - Cunha Leal, então diretor do Banco de Angola, profere conferência na Associação Comercial de Lisboa onde critica violentamente Salazar, por causa de Angola. Considera que, devido a esta política, Angola pode deixar de ser portuguesa. A maioria do CM é favorável a Cunha Leal, mas Carmona apoia Salazar. Este responde a Cunha Leal através de nota oficiosa do dia 7, a que Leal responde no dia 8. Cunha Leal é demitido do Banco de Angola, o governo cai e Salazar, no novo gabinete passa a ministro interino das colónias.

Dia 11 - Discussão no Conselho de Ministro da questão Cunha Leal. A maioria dos ministros está contra Salazar que apenas é apoiado pelo ministro da justiça Lopes da Fonseca.

Dia 15 - Anuncia-se que Passos e Sousa formará governo.

Dia 21 - Governo de Domingos Oliveira. Salazar, ministro interino das colónias e Cunha Leal sai da direção do Banco de Angola.

Dia 25 - Salazar em nota oficiosa, na qualidade de ministro interino das colónias, anuncia um plano de obras de fomento para Angola.

Dia 28 - Em Espanha, Miguel Primo de Rivera pede a demissão e parte para o exílio em Paris. Há uma grave crise económica, a que se segue uma súbita desvalorização da peseta.

Fevereiro

Dia 16 - Norton de Matos critica publicamente plano de obras de fomento para Angola anunciado por Salazar em 25 de janeiro. Salazar é obrigado a responder com uma série de notas oficiosas de 16 e 22 de fevereiro, bem como de 29 de abril.

Março

Dia 12 - Uma Junta Liberal promove uma conferência anti-salazarista do engenheiro Perpétuo da Cruz na Associação de Socorros Mútuos dos Empregados do Comércio e Indústria.

Conflito em Angola. O alto-comissário Filomeno da Câmara visita o Lobito e deixa a indefinição em Luanda, onde estala um conflito entre o chefe de estado maior Genipro da Cunha de Eça Freitas e Almeida e o tenente Morais Sarmento, com troca de tiros e morte deste último. Salazar, em 16 de março, demite o alto-comissário e nomeia o tenenete-coronel Bento Roma, segundo o conselho de monsenhor Alves da Cunha.

Em 27 de março, cai o governo alemão presidido pelo social-democrata Hermann Muller. Em 30 de março, surge um governo de inspiração presidencial, como o católico Heinrich Brunning.

Começa o julgamento de Alves dos Reis.

Abril

Surge Política, revista doutrinária, editada pela Junta Escolar de Lisboa do Integralismo Lusitano. Entre os colaboradores, Dutra Faria, Pinto de Lemos, Amaral Pyrrait, António Pedro e António Tinoco. Dura até março de 1931.

Dia 30 - Publicado o Acto Colonial que cria o conceito de Império Colonial Português, abolindo o regime dos altos-comissários. Diz-se que visa os princípios do mais alto nacionalismoEstava reunido na altura em Lisboa o 3º Congresso Colonial que defende a designação de províncias ultramarinas e a consideração de um todo unitário e indivisível. Salazar é apoiado por João de Almeida, mas ferozmente criticado por Cunha Leal. O 28 de maio entra em cisão tanto pela questão colonial como pela questão militar.

Maio

Prisão de Cunha Leal. Do Aljube passa para Ponta Delgada e, daqui, para o Funchal. Evade-se em novembro e só regressa a Lisboa, amnistiado, em dezembro de 1932. São também presos nesse mês João Soares, Moura Pinto, Tavares de Carvalho, Carneiro Franco e Raúl Madeira.

Dia 17 - Publicada a Reforma da Contabilidade Pública.

Dia 28 - Discurso de Salazar na Sala do Risco Ditadura Administrativa e Revolução Política.

Junho

Dia 16 - Nota oficiosa de Salazar sobre a situação de Angola. Anunciada a criação do Banco de Fomento Colonial com extinção da Junta da Moeda de Angola. O general Bilstein de Meneses é enviado como observador a Angola.

Dia 17 - Prisão de vário chefes republicanos (Sá Cardoso, Helder Ribeiro, Augusto Casimiro, Rego Chaves, Ribeiro de Carvalho, Maia Pinto, Correia de Matos, Pinto Garcia e Carlhos Vilhena). Já tinham sido detidos em maio João Soares, Moura Pinto, Tavares de Carvalho, Carneiro Franco, Raul Madeira e Cunha Leal. Tudo por causa de um presumível golpe, marcado para o dia 21.

Julho

Dia 5 - Prisão de João de Almeida, o herói dos Dembos. Nota oficiosa refere que o mesmo preparava um movimento revolucionário destinado a derrubar o governo.

Ivens Ferraz em conluio com o ministro da guerra Namorado de Aguira movimentam-se no sentido do afastamento de Salazar.

Dia 29 - Salazar abandona a pasta das Colónias, para onde é nomeado Eduardo Marques.

Dia 30 - Criada a União Nacional por decreto do Conselho de Ministros. Na Sala do Conselho de Estado, General Domingos de Oliveira lê o texto. Comparecem membros do Governo e representantes dos municípios do país. Salazar faz discurso intitulado Princípios Fundamentais da Revolução Política onde critica as desordens cada vez mais graves do individualismo, do socialismo e do parlamentarismo, laivados de atuações internacionalistas.

Agosto

Dia 17 - Em Espanha, as oposições de esquerda unificam-se pelo chamado Pacto de S. Sebastian.

Causa Monárquica apoia Salazar e incita os monárquicos a aderirem à União Nacional.

Lopes Mateus, o ministro do interior, conhecido como o cabo Mateus entra em conflito com Vicente de Freitas e persegue os monárquicos que não aceitaram colaborar. Chega a ser preso João de Almeida.

Surge em Paris o chamado Grupo de Buda com os oposicionistas Moura Pinto, Jaime Morais e Jaime Cortesão. Ligados a José Domingues dos Santos.

Setembro

Em 14 de setembro, eleições na Alemanha. Os nazis, que se opõem ao pagamento de indemnizações de guerra, passam de 12 para 107 deputados.

Outubro

Dia 5 - Em 5 de outubro de 1930, esboçam-se em Lisboa manifestações da oposição. Efetuadas várias prisões.

Dia 24 - Em 24 de outubro, golpe militar depõe o presidente Washington Luís no Brasil.

Novembro

Dia 3 - Em 3 de novembro, sobe ao poder no Brasil Getúlio Vargas.

Dezembro

Dia 12 - Em 12 de dezembro os últimos soldados aliados evacuam do Sarre.

Inaugurada a Liga 28 de maio. Dominada por sidonistas e tendo como principal líder David Neto.

Dia 30 - Salazar em discurso para militares, elogia as virtudes (é o regime das notas oficiosas, dos discursos calmamente encenados em salas fechadas perante delegações representativas; o reviralho faz golpes de Estado ou organiza-se no exílio).