Intelectuais e política

Intelectuais

  • Julien Benda, La Trahison des Clercs, 1927.
  • Georges Bernanos, La Grande Peur des Bien-Pensants, 1931.
  • Marcel Aymé, Le Confort Intellectuel, 1949.
  • R. Aron L’Oppium des Intelectuels, Paris, Éditions Calmann-Lévy, 1955.
  • Gella, A., The Intelligentsia and the Intelectuals. Theory, Methode and Case Study, Newbury Park, Sage Publications, 1976.
  • Penna, José Osvaldo Meira, O Dinossauro. Uma Pesquisa sobre o Estado, o Patrimonialismo Selvagem e a Nova Classe dos Intelectuais e Burocratas, São Paulo, T. A. Queiroz, 1988.
  • Bourricaud ¾ Le Bricolage Idéologique. Essai sur les Intellectuels et les Passions Démocratiques, Paris, Presses Universitaires de France, 1980.
  • Debray, Régis, Le Pouvoir Intellectuel en France, Paris, Ramsay, 1979.
  • Huzbar, G. B., ed., The Intellectuals. A Controversial Portrait, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1960.
  • Makhaiski, Jan Waclay, Le Socialisme des Intellectuels [ed. orig. 1900], trad. fr., Paris, Éditions du Seuil, 1979.
  • Molnar, Thomas, The Decline of Intellectuals, Cleveland, Meridian, 1961.
  • Parker, E., Les Dictatures de l’Intelligentsia, Paris, Presses Universitaires de France, 1987.

Intelectuais Orgânicos

Segundo Antonio Gramsci vai teorizar como a necessidade de uma prévia conquista do poder cultural, através dos intelectuais orgânicos, antes da tomada do poder político

Tese de António Gramsci.

Intelligentzia

É na Rússia pós-iluminista que se corporiza a chamada intelligentzia, palavra de origem alemão, eslavizada pelos polacos, que, diferentemente dos intelectuais à la française, surgidos no final do século XIX, e dos posteriores bacilos revolucionários leninistas ou dos intelectuais orgânicos gramscianos, constitui um grupo social que se distinguiu tanto da sociedade civil, entendida em termos hegelianos enquanto sociedade dos burgueses, como do próprio aparelho de poder e da burocracia dele dependente.

A intelligentzia russa, como o clero do nosso ancien régime, assumia-se como uma ordem monástica ou como uma seita possuindo a sua própria moral. Era uma coletividade de ideologia e não profissional ou económica, de carácter interclassista, à qual pertenciam muitas pessoas que não eram intelectuais, ao mesmo tempo que outros tantos sábios e letrados, por não comungarem da ideologia, dela não faziam parte. Assumindo a rutura e o desenraizamento, não só adquiriu o estatuto de pária, segundo as categorias weberianas, como, em virtude da vagabundagem social a que foi sujeita pelos poderes públicos, nomeadamente a polícia secreta, vai tornar-se cismática.

Contudo, a ideologia que a conformou foi variando: darwinismo, socialismo utópico de Fourier a Owen, hegelianismo, materialismo naturalista e, finalmente, o marxismo, em regime de abuso quase idolátrico. Ao identificar-se por uma ideologia própria, o homem da intelligentzia russa, que a si mesmo passou a considerar-se como uma personalidade pensante, diferia substancialmente do intelectuel francês, dado que este era essencialmente marcado pelo sinal artístico ou literário, pelo menos no período que medeia entre o caso Dreyfus e a Segunda Guerra Mundial. Assim, os membros da intelligentzia russa grupusculizaram-se numa autêntica classe social, numa comunidade crítica face ao poder político estabelecido, diferindo, deste modo, do portuguesíssimo senhor dr. dos fins da monarquia e deste século. Passaram, portanto, a constituir uma espécie de estamento que se assumiu como a vanguarda da sociedade e que tratou de atribuir a si mesmo a missão de educar os não iluminados do vulgo.

Estes grupos intelectuais que, na maior parte dos casos, obtiveram a respetiva formação através de fontes estranhas à matriz cultural russa, têm, contudo, algo a ver com os nossos estrangeirados do século XVII e princípios do século XIX. Também como estes, se dividiram em partidos contraditórios e, muitas vezes, quando tinham a ilusão de ser nacionalistas, mais não faziam do que traduzir formas nacionalistas estranhas à respetiva nascença. Estas ruturas culturais talvez sucedam sempre que um sistema educativo entra em regime de estagnação e não consegue dar resposta às exigências anímicas e às necessidades formativas de uma determinada comunidade.

Em Portugal, aliás, essa rutura voltou a acontecer nos anos sessenta e Setenta deste século quando uma nova vaga de estrangeirados veio demonstrar que o sistema educativo e a doutrina oficiosa do regime salazarista já estavam em desarmonia com a sociedade. Saliente-se também que na Rússia havia ocidentalistas que apenas pretendiam defender o legado de Pedro o Grande, tal como, entre nós, muitos estrangeirados eram adeptos do despotismo esclarecido. Continuando o paralelismo, podemos dizer que a França esteve para nós, portugueses, tal como a Alemanha esteve para a Rússia. E tanto Marx como Comte, nos dois casos, talvez tenham sido formas de intermediação daquela filosofia inglesa que teve no darwinismo o respetivo clímax. Isto é, o velho fundo solidarista do Portugal Velho e da Rússia de sempre, recebeu o impacto dessas formas utilitaristas e evolucionistas, sempre de forma indireta. Foi uma espécie de vingança da Reforma contra os ortodoxismos dos ortodoxos propriamente ditos e dos ortodoxos contrarreformistas à maneira dos ditames saídos do Concílio de Trento.

Ora, esta intelligentzia vai desempenhar um papel fundamental na Rússia contemporânea, através da tensão entre eslavófilos e ocidentalistas, a que se seguem as vagas do populismo e do niilismo, até à receção dos socialismos exóticos, principalmente do marxismo, que atuou como bulldozer uniformizador da intelectualidade russa, um pouco à imagem e semelhança do que fizeram entre nós, com o republicanismo, as vulgarizações ideológicas do positivismo comteano.

Intellectuels

A expressão foi consagrada durante o caso Dreyfus, principalmente quando em 14 de janeiro de 1898 surgiu o Manifeste des Intellectuels, dinamizado por Clemenceau e publicado no jornal L’Aurore, depois do aparecimento do J’Accuse de Zola. Entre os subscritores, para além de Zola, os Halévy, Anatole France, Léon Blum e Marcel Proust. Já antes Henry de Bérenger (1867-1952) tinha falado em L’Aristocratie Intelectuelle, 1895, repetindo o modelo em La France Intelectuelle, de 1899. Contra a posição dos dreyfusards, logo se levanta uma corrente nacionalista liderada por Maurice Barrès. Segue-se Charles Péguy, em 1906, nos Cahiers de la Quinzaine, falando na dominação do partido intelectual. Uma perspetiva também assumida por sindicalistas revolucionários como Georges Sorel e E. Berth. Esta perspetiva retoma algumas linhas dos philosophes da république des lettres, conforme havia sido enunciada por D’Alembert, bem como algo das teses de Saint-Simon sobre os savants.

Tal como a corrente contrária retoma a perspetiva de Burke, quando criticava o factos dos homens de letras se tornarem políticos, formando uma cabala filosófica e literária destinada a monopolizar a opinião pública. Da mesma forma, Alexis de Tocqueville, em 1856, critica nos intelectuais políticos a sua falta de experiência e a sua tendência para propalarem ideias gerais que levam a extremismos simplistas.