Governo de António Granjo (1921)

António_GranjoDe 30 de agosto a 19 de outubro de 1921 (50 dias – Quase dois meses).

27º governo republicano. 13º governo pós-sidonista[1].

  • Presidente acumula com o interior. Tinha então quarenta anos. Antigo seminarista. Formado em direito por Coimbra. Alferes durante a Grande Guerra. Conspirador contra o sidonismo. Colaborador da República;

  • Na justiça e cultos, Raúl Lelo Portela;

  • Nas finanças, Vicente Ferreira;

  • Na guerra, Freitas Soares[2];

  • Na marinha, Ricardo Pais Gomes, proveniente do governo anterior;

  • Nos negócios estrangeiros, Melo Barreto, antigo monárquico apoiante de Teixeira de Sousa;

  • No comércio e comunicações, o antigo evolucionista Fernandes Costa;

  • Nas colónias, Ferreira da Rocha;

  • Na instrução pública, Ginestal Machado;

  • No trabalho, Lima Duque. Já tinha exercido tais funções com António Granjo (de 19 de julho a 20 de novembro de 1920) e Tomé de Barros Queirós (de 24 de maio a 30 de agosto de 1921). Voltará à pasta com Álvaro de Castro (de 18 de dezembro de 1923 a 6 de julho de 1924);

  • Na agricultura, Fernandes Costa intº e Aboim Inglês, desde 3 de setembro. Aboim Inglês não era agricultor, conhecido como amigo de Palha Blanco.

Em 3 de setembro:

  • Aboim Inglês na agricultura. Acusado de ser afeto às forças vivas.

Constituído o governo em 30 de agosto.

Uma experiência governamental republicano-conservadora liderada por António Granjo. Domina a ala dos ex-evolucionistas que integram os liberais. Há uma forte oposição dos populares, também eles ex-evolucionistas, liderados por Júlio Martins, que conseguem federar os sindicalistas, os adeptos de Liberato Pinto e os membros da esquerda dos democráticos, dominada pelo Grupo dos 13 e pelo Centro Radical António Maria Baptista.

Apresentação parlamentar em 31 de agosto. Neutralidade dos católicos; cepticismo dos reconstituintes; quanto aos democráticos prometem fiscalização patriótica e republicana[3].

Granjo é acusado de vendido às Moagens, de reacionário e de monárquico. O escândalo dos cinquenta milhões de dólares domina as discussões parlamentares. Ataques especialmente virulentos da Imprensa da Manhã, a voz de Liberato Pinto, subsidiada por Alfredo da Silva e Fausto de Figueiredo.

Setembro de 1921

Deputado António Luís Gomes, em 1 de setembro, considera que o sistema parlamentar está condenado por causa do regime de mentira, ao mesmo tempo que os ministros são uns verdadeiros crimonosos que estão a arrancar o sangue do povo português. Conclui salientando: cada vez enjoo mais a política. Nunca entrei para partido algum, porque os partidos da República têm colocado os homens acima dos partidos … Por isso é que os homens de bem se retraem, afastando-se da política[4].

Artigo em O Século, em 1 de setembro, sobre a crise das subsistências considera que a classe média ficou entre o martelo e a bigorna.

Confirmada a burla do empréstimo dos 50 milhões de contos através de comunicação diplomática do visconde de Alte em 4 de setembro. O gabinete de Barros Queirós já conhecia a trama desde 28 de agosto[5].

Em 5 de setembro, comício em Loures, com violentos discursos anti-católicos. Declarações de António Granjo no Senado, em 2 de setembro são desvirtuadas pelo relato parlamentar do Diário de Notícias, quando se refere que Granjo reconhecia a religião católica como a única do país[6].

Em 8 de setembro, Cunha Leal interpela o ministro das finanças sobre a matéria. Sobre os boatos que correm, Vicente Ferreira apenas diz fumo. Na Câmara dos Deputados, intensos ataques aos banqueiros portugueses que serviram de intermediários no processo[7].

Confimada pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército a punição a Liberato Pinto, um ano de detenção (10 de setembro)[8]. Surge campanha da Imprensa da Manhã em apoio de Liberato[9].

Em 16 de setembro, o deputado Carvalho da Silva denuncia o facto do governo ter indemnizado com 4 500 contos indivíduos e empresas consideradas vítimas da última revolução. Jornais O Mundo e O Portugal, afetos aos democráticos, são contemplados com 260 e 330 contos, respetivamente.

Em 17 de setembro, os trabalhos parlamentares são suspensos até 7 de novembro.

Publicada nova lei cerealífera em 19 de setembro, criando três tipos de pão e de farinha. Regresso aos preços de 1899, atualizados pelo câmputo ouro[10].

Aborta golpe de Estado em 30 de setembro. O chefe da conjura é o tenente-coronel Manuel Maria Coelho, com o capitão de fragata Procópio de Freitas e os oficiais da GNR Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos. Presos alguns desses cabecilhas, eles são depois libertados por Granjo. Entre os presos, o coronel Xavier Ferreira, Orlando Marçal, Sebastião Correia e Procópio de Freitas.

Surge um esboço de movimento de salvação pública, subscrito por José de Castro, António Luís Gomes, Jaime Cortesão, João de Deus Ramos, Francisco António Correia, Ramada Curto, Cunha Leal, Leonardo Coimbra e Sá Cardoso.

Outubro de 1921

Fausto de Figueiredo, um dos financiadores da Imprensa da Manhã, promove encontro de António Granjo e Cunha Leal no Estoril em 5 de outubro[11]. Nas cerimónias do cemitério do Alto de S. João, na romagem aos túmulos de Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, há insultos a Granjo, com morras à reação e aos jesuítas. Mas o presidente do ministério manda libertar os implicados no 30 de setembro que se encontravam detidos. Considera que só pela brandura se consegue governar.

Regresso ao tipo único de pão em 15 de outubro[12].

Em 16 de outubro sai o primeiro número da revista Seara Nova.

Em 19 de outubro, a Noite Sangrenta, onde são assassinados o presidente do ministério e o fundador da República, Machado Santos, juntamente com J. Carlos da Maia. Triunfava a revolta falhada em 30 de setembro, agora apoiada por forças da marinha. Os ministros da guerra e da marinha estavam ausentes de Lisboa. No quartel do Carmo, às 10 horas da manhã, Granjo escereve a António José de Almeida, demitindo-se.

Alfredo da Silva foge precipitadamente para Espanha[13].

Uma camioneta-fantasma com o cabo Abel Olímpio, chamado O Dente de Ouro, circula por Lisboa recolhendo aqueles que serão assassinados. Granjo ainda tenta refugiar-se na casa do vizinho Cunha Leal, seu adversário político, mas é daqui arrancado, vindo a morrer no Arsenal. São também assassinados o secretário do ministro da marinha, comandante Freitas da Silva e o coronel Botelho de Vasconcelos[14].

José Júlio Costa, o assassino de Sidónio Pais, que se encontrava detido no hospital Miguel Bombarda, é libertado, no dia 19, por 300 civis armados. Depois de passar pelo centro Republicano António Maria Baptista, onde é homenageado, segue para a clandestinidade no Norte.

[1] Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 48 (32º ministério; 11º do mandato presidencial de António José de Almeida); Jesus Pabón, pp. 480 ss.; Oliveira Marques, p. 730.

[2] Antigo chefe de gabinete de Tamagnini Barbosa, ministro da guerra de José Relvas em 1919.

[3] Damião Peres, p. 307.

[4] Costa Brochado, O Sr. Norton de Matos…, pp. 90-91.

[5] Damião Peres, p. 307.

[6] Damião Peres, p. 309.

[7] Damião Peres, p. 307.

[8] Damião Peres, p. 309.

[9] Damião Peres, p. 309.

[10] Damião Peres, pp. 307-308.

[11] Cunha Leal, II, p. 280.

[12] Damião Peres, p. 308.

[13] Jesus Pabón, 480 ss; Cunha Leal, As Minhas Memórias, II,  pp. 279-314; Damião Peres, pp. 311-312.

[14] Damião Peres, pp. 313 ss.