Facto

No seguimento das teses de Locke, para quem a matter of fact é uma entidade observável diferente daquela que é meramente deduzida, o empirismo de Hume vem fazer o confronto entre as coisas como elas realmente são (os factos) e as coisas como elas devem ser (o valor), gerando-se a tendência para uma radical separação entre o ser e o dever-ser, com a consequente perspetiva que considera que a ciência apenas pode tratar dos factos e não do valor, como vai concluir o positivismo. Esta herança vai mesmo salientar que a ciência política, para ser verdadeiramente científica deve ser cega perante os valores e nem seque pode ter como objeto as ideias, ficando-se pelas ideologias enquanto meros factos sociais.

Para Durkheim os fenómenos sociais devem ser tratados como coisas. Isto é, como algo que se oferece ou apresenta à observação e que, como “data”, constituem o ponto de partida para a ciência. Neste sentido, seriam algo independente dos agentes. São maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotados de um poder de coerção, porque se impõem aos mesmos indivíduos, não se confundindo com os fenómenos orgânicos nem com os fenómenos psíquicos. São diferentes dos primeiros porque consistem em representações e ações; diferem dos segundos porque estes apenas têm existência na consciência individual e por ela. Até porque a maior parte das nossas ideias e tendências não são elaboradas por nós, vêm-nos de fora. Trata-se de uma velha tese positivista que mesmo um autor integralista como António Sardinha sublinha, quando em O Valor da Raça, proclama: é o Facto que nos inspira, unicamente o Facto. Conduz-nos não a suposta excelência de Princípios. É o inventário das realidades ambientes o motivo que intimamente nos delibera. Já antes o empirismo de Locke salientava a existência de uma matter of fact, considerando esta aquilo que é observável, sendo diferente daquilo que apenas é deduzido.

Depois, saliente-se a oposição feita pela fenomenologia de Husserl dos factos, sempre individuais, às essências, sempre universais. Resta saber de o dever-ser não está metido dentro do próprio ser, como defende a clássica teoria da natureza das coisas, segundo a qual só por dentro das coisas é que as coisas realmente são. Essa perspetiva terceirista que tenta superar o radical realismo e o idealismo absoluto, em nome de um ideal-realismo ou de um materialismo transcendental e que nega a ciência livre de valores, quando admite o transcendente situado e considera que pode haver ciências, como as ciências culturais, entendidas como ciências com referência aos valores, perspetivas, não segundo a tese da ética material dos valores, mas conforme o imanentismo de Aristóteles.