Europa

Os limites geográficos 

Não há, geograficamente falando, limites consensualizados para a Europa. Com efeito, os próprios geógrafos parecem não subscrever a célebre diatribe de Bismarck, para quem a geografia é a única verdade da Europa. O único consenso que, neste domínio, consegue atingir-se é o da consideração da Europa como uma península, como uma presqu’île, que, vinda da Ásia, se perde no mar, de maneira que a terra europeia se assume como o mais marítimo e o menos continental, de todas aquelas grandes ilhas do mundo a que se dá o nome de continente. E o consenso científico dos geógrafos parece vir de longe. Já ém 1725, Noblot qualificava a Europa como uma grande península, coisa que será posteriormente repetida.

Assim, em 1816, Brun utiliza a expressão prolongamento da Ásia. Blanchard, em 1936, a refere como  península do vasto continente asiático. Coincidem aliás com aquele golpe de asa poético de Paul Valéry que, na sua La Crise de l’Esprit, de 1919, salientava que a Europa não passaria de um petit cap du continent asiatique, de uma  étroite presqu’île que ne figure sur le globe que comme appendice de l’Asie. Essa parte ocidental, acidentada, da península asiática, a que chamamos Europa. Contrariando esta perspetiva, têm vindo alguns autores recentes a decretar fronteiras para o Leste Europeu. É o caso de Otto Molden que afasta da Europa a Ucrânia, a Bielorrúsia e Rússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos e de Krzystof Pomian que fala num limite que passa a leste da Finlândia, dos países bálticos e da Polónia, que atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas, a Sérvia de um lado, a Croácia de outro, isto é, que remete para o outro lado, a igreja ortodoxa.

Otto Molden, em Die europãische Nation. Die neue Supermacht vom Atlantik bis zur Ukraine, Munique, Herbig, 1990, estabelece o limite leste da Europa numa linha que começa no Lago Peipous e passa pelos rios Pripet e pelo Dniester, abandonando os Urales, isto é, afasta da Europa, não só a Rússia, como também a Ucrânia e a Bielorússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Isto é, reconhece a Rússia como uma Ásia com apêndice europeu. Krzystof Pomian, em L’Europe et ses Nations, Paris, Gallimard, 1990, diz que o limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países. Qualquer um deles toma uma atitude paralela àqueles ocidentalistas que como Gonzague de Reynold, nos anos trinta, passou a considerar que depois da revolução russa, a fronteira da Europa recuou de novo para o centro desta; a Rússia tornou-se asiátrica, mesmo mais do que asiática, ela é a anti-Europa.

Contudo, tanto a Comissão Europeia como o próprio Conselho da Europa, rejeitando as fórmula simples, têm preferido adotar uma definição aberta da Europa. Em 1992, num documento sob o título A Europa e o desafio do alargamento, a Comissão vem considerar que a noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que  a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples e o respetivo conteúdo é suscetível de mudar au gré das sucessivas gerações.

Conclui, assim, que não é possível nem pertinente  fixar na hora atual as fronteiras da União europeia, cujos limites serão traçados num decurso de um período à venir de vários anos. Por seu lado, a assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em 22 de abril de 1992, quando abordou a integração de anteriores territórios da URSS, estabeleceu uma hierarquia entre eles: num primeiro grupo, incluiu os incontestavelmente europeus, as repúblicas bálticas, a Bielorrússia, a Moldava, a Rússia e a Ucrânia; num segundo grupo, constituído pelos Estados do Cáucaso, como a Arménia, o Azerbeijão e a Geórgia, já fala que o caráter europeu dos mesmo é mais duvidoso, para não ter dúvidas em considerar que o Cazaquistão, a Quirguízia, o Tajiquistão, o Turquemenistão e o Uzbequistão, têm um caráter europeu dificilmente aceitável.

Europa sem limites 

As realidades permanecentes da Europa são insuscetíveis de definição através da emissão de uma qualquer oração que dê uma noção completa de tal objeto. Primeiro, porque é materialmente imposível  de+finire Europa, estabelecer-lhe os limites, dar-lhe fins ou confins, fixar-lhe fronteiras, em suma, fechá-la. Depois, porque se torna inglório fixar-lhe uma essência, um centro a partir do qual possa traçar-se a linha separadora da não Europa. Diremos, como salienta Theodore Zeldin, que  a originalidade da Europa é não haver fronteiras. Acrescentaremos até que, da essência da Europa, faz parte não poder conceber-se qualquer espécie de essência da Europa. Julgamos pois que todas as definições axiomáticas da Europa não passam de exercícios interessantes, mas infrutíferos, quando não perigosos. Até porque nestes domínios, omnis definitio periculosa esta, sobretudo quando, sob o disfarce da lógica, se constroem pretensos primeiros princípios donde depois se ousa descer ex genere et differentia, pela dedução, estabelecendo-se um sistema hierarquizado de conceitos, um pretenso saber de ciência certa, seja a do magister dixit, seja o do decreto do poder absoluto que eventualmente o normalize. Digamos, como François Perroux, que a Europa é, definitivamente, uma Europe sans rivages, um objeto não identificado e não identificável, mas que, apesar disso, não deixa de ser bem real, especialmente quando a olhamos de fora, com um pedacinho de senso comum, mesmo que envolto num não sei quê de nostalgia metafísica. Paul Valéry, em Regards sur le Monde Actuel, Paris, 1931, diz ter descoberto uma espécie de ideia virtual da Europa quando enfrentou os problemas da guerra do Japão contra a Rússia e dos Estados Unidos contra Cuba. Então terá percebido confusamente a existência de qualquer coisa que podia ser atingida e inquietada por tais acontecimentos. Encontrei-me sensibilizado em conjeturas que afetavam uma espécie de ideia virtual de Europa que ignorava trazer dentro de mim até então. Nunca tinha sonhado que existisse verdadeiramente uma Europa. Não procuremos, pois, aceder à Europa pelo essencialismo, pela definição de um conceito entendido como essência, donde, depois, poderá descer-se, dedutivamente, do axioma para o concreto, através de um rendilhado de definições. Fazer isto, é aceitar o eventual primeiro princípio da autoria de um qualquer mestre pensador e reconhecer autoridade aos proclamados discípulos do mesmo, só porque, eventualmente, têm o controlo do dicionário ideológico do supremo hierarca.

A Europa só pode ser inventada, só a podemos desvelar pela inventio, pelo descobrimento, por uma ars inveniendi que a reconheça como problema e que a procure captar como sistema aberto. Só assim a poderemos compreender, vislumbrá-la como um todo, vendo cada parcela da mesma como dotada de uma realidade de sentido, mesmo que seja através daquela intuição imediata, com que um observador, dotado de senso comum, a pode identificar. Só depois a poderemos introspetivar e reflectir, representando-a no nosso próprio espírito. E quem ousar pensar a Europa, depressa chegará à conclusão que ela só pode ser entendida como contradição, senão mesmo como paradoxo, dada que a respetiva complexidade, apesar de tudo, tem a harmonia dos conjuntos marcados pela coordenação de elementos dispersos e não semelhantes, como concórdia dos discordes. Digamos, muito categoricamente, que a Europa, em termos de homogeneidade, não é uma realidade geográfica, não é uma realidade étnica, não é uma realidade histórica, não é uma realidade política, não é uma realidade geográfica, não é uma realidade jurídica, não é uma realidade psicológica, nem sequer uma realidade cultural que, encarando-a, através de qualquer uma destas facetas nunca a encontraremos unidimensional, como um bloco monolítico.

Europa das nações (1960) 

Foi em 5 de setembro de 1960 que o general De Gaulle lançou a ideia de uma Europa das nações em nome das realidades dos Estados existentes. Para o chefe de Estado francês  importava atuar, não de acordo com os sonhos, mas sim em conformidade com as realidades, no sentido de construir a Europa, isto é, unificá-la, considerado um objetivo essencial. Nestes termos dissertava: Ora, quais são as realidades da Europa? Quais são os alicerces sobre os quais queremos construi-la? Na verdade, são os Estados que, de certo, são muito diferentes uns dos outros, que têm cada um a sua alma para si, a sua história para si, a sua língua para si, os seus infortúnios, as suas glórias, as suas ambições para si, mas Estados que são as únicas entidades que têm o direito de ordenar e a autoridade para agir. Fingir-se que pode construir-se qualquer coisa que seja eficaz para a ação e que seja aprovado pelos povos por fora e por cima dos Estados, é uma quimera. Seguramente, esperando qu’on a pris corps à corps e no seu conjunto o problema da Europa, é verdade que se pôde  instituir certos organismos mais ou menos extranacionais. estes organismos têm o seu valor técnico mas não têm nem podem ter autoridade e por conseguinte eficácia política.

Defesa da cooperação política

Assim, propõe que se ultrapasse o problema pela instituição daquilo que qualifica como a cooperação política: assegurar a cooperação regular da Europa ocidental, é o que a França considera como sendo desejável, como sendo possível e como sendo prático no domínio político, no domínio cultural e no da defesa. Isso implica um concerto organizado e regular dos governos responsáveis e em seguida o trabalho de organismos especializados em cada um dos domínios comuns  e subordinados aos governos; isso implica a deliberação periódica de uma Assembleia que seja formada  pelos delegados dos Parlamentos nacionais e, em meu entender, isso deve implicar a mais cedo possível, um solene referendo europeu de maneira a dar a tal ponto de partida da Europa o caráter de adesão e de intervenção popular que lhe é indispensável. Conclui, assim, que se enveredarmos por esse caminho forjar-se-ão elos, adquirir-se-ão hábitos e, com o tempo, é possível que venham a dar-se outros passos para a unidade europeia.

Europa como confederação de nações

O mesmo De Gaulle, numa conferência de imprensa de 31 de dezembro de 1960,  proclama: nós faremos, em 1961, o que temos de fazer: ajudar a construir a Europa que, confederando as suas Nações, pode e deve ser para o bem dos homens a maior potência política, económica, militar e cultural que jamais existiu. Este mesmo De Gaulle, considerava num artigo de 1948 que A Europa deverá ser uma federação de povos livres.

Em abril de 1962 considerará: Se a União Política não for instituída, que ficará do Mercado Comum? Não deixava, no entanto, de salientar em privado:  A Europa é um meio para a França tornar a ser o que era antes de Waterloo: a primeira no Mundo (agosto de 1962). Também, em privado, salientava em setembro de 1962: o interesse egoísta da França é que a Alemanha continue dividida o mais tempo possível. Mas nisto não será eterno. Adenauer pensa-o, engana-se. O futuro vai desmenti-lo. A natureza das coisas será a mais forte. A Alemanha há-de reunificar-se.  Na mesma altura salientava que As únicas realidades internacionais são as nações. A Rússia secará o comunismo como o mata borrão seca a tinta.

Europa Una num Mundo Único

Lema da União Europeia dos Federalistas, constituída em dezembro de 1946.

A mitologia e os símbolos 

Os rigores científicos da geografia não andam longe dos relatos mitológicos de onde nos vieram tanto o nome Europa  como a obsidiante nostalgia pelo ventre materno asiático  e da própria poesia recriadora dos mitos, confirmando-se assim que a poesia, como dizia Aristóteles, pode ser mais verdadeira que a história. Segundo os relatos da Ilíada e da Odisseia,  o chefe dos deuses, Zeus, é qualificado como o euruopé, como aquele que tem olhar amplo ou que olha para longe (eurus quer dizer amplo ou vasto  e ops quer dizer olhar).  A Europa aparece pois, etimologicamente, como a região do largo horizonte.

Para uns, a Europa seria uma das três mil filhas de Oceano e de Tethis, as ninfas do mar ou oceânides, conforme a referência de Hesíodo, no verso 357 da Teogonia. Para outros,  uma princesa fenícia, filha de Agenor, rei de Tiro, que foi amada por Zeus, rei dos Deuses; este, disfarçado de touro, raptou a princesa, levando-a, das praias de Tiro, para a ilha de Creta, onde retomou a forma primitiva; depois, transformou o touro em constelação que colocou entre os signos do zodíaco. O português António Sardinha, retomando o episódio, escreveu o poema Roubo da Europa, onde coloca a princesa fenícia nos penhascos do Ocidente, dando à luz um moço a quem chamaste Portugal. Noutro poema, sobre a mesma temática, intitulado Cabo da Roca, diz-nos: Aqui acaba toda a terra antiga,/ começa aqui a tentação do mar./ Europa – ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar…/ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p’ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sozinhos,/ deram os dois o ser a Portugal. 

A este respeito, importa observar que todas estas lendas gregas eram geradas quando apenas se conheciam seguramente as bordas do Medirrâneo, mar onde se casavam os três continentes conhecidos, todos com o nome de mulher: a Ásia, considerada a esposa de Prometeu, a Líbia, nome que então se dava à África, e a Europa. Também a patrística cristã de São Jerónimo (346-420) e de Santo Ambrósio (n. 340), continuada por Paulo Orósio e Santo Isidoro de Sevilha, invocam o mito bíblico de Japhet, filho de Noé, a quem teria cabido, em partilha, a Europa, enquanto para Sem e Chgam, teriam ficado a Ásia e a África

O mar 

Eis, portanto, a Europa como aquele sítio onde a terra acaba e o mar começa, conforme dizia Camões, sobre Portugal. Onde acaba toda a terra antiga e começa a tentação do mar, utilizando agora António Sardinha. Eis uma Europa que nasceu e cresceu à volta do mar, como observa Bernard Voyenne. Segundo as palavras deste último autor, esta península das tormentas, ramificada até ao infinito, é na verdade o lugar mais banhado que há no mundo: um quilómetro de costa  para dois mil quatrocentos e vinte e nove quilómetros quadrados de terras. Por todo o lado, a água se insinua,  vai subindo em largos estuários e fiordes, bordeja ilhas e ilhéus litorais. Nenhuma distância face ao mar excede mil quilómetros e na maior parte dos casos essa distância é bem menos (mesmo a Suíça, um país que passa por continental, está a menos de seiscentos quilómetros do oceano e a trezemtos do Adriático). A Europa nasceu e cresceu à volta do mar; expandiu-se a bordo de um oceano…

Os símbolos europeus

Foi misturando o azul do mar, o futurismo romântico, resquícios da mitologia e algum cabalismo, que, neste nosso tempo de ciência e racionalidade, mas depois do apocalipse e à beira de um novo e mais doloroso apocalipse, se estabeleceram os panteístas e profetistas símbolos da Europa, desde a bandeira da Europa, em 1955, com um diadema de doze estrelas sobre um fundo azul, ao próprio hino, em 1972, retirado da Ode à Alegria de Ludwig van Beethoven. Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a  romana lei das doze tábuas. Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim).

Tudo muito conforme, aliás, com  o capítulo XII do Apocalipse de S. João. Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira, onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com cetro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os os falsos profetas que o seguem. Interpretando tal passagem,  António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da  Igreja do Quinto Império, onde se descreve  a maneira da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado. Tratar-se-ia da  procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem  o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.

Europa-hegemonia do mais forte e consentimento dos outros,70,464.

Europa-integração política,70,465.

Europa-transferência de lealdades,70,465.