École Libre des Sciences Politiques

A escola tem como inspirador Émile Boutmy, estando na origem das chamadas Science Politiques da Rue de Saint-Guillaume, isto é, tanto da Fondation Nationale des Sciences Politiques como do Institut d’Études Politiques de Paris, entidades surgidas a partir de 1945. Fundada depois da guerra franco-prussiana, quando a nova administração francesa vivia em maré de reconstrução nacional, recebeu os contributos do triunfante positivismo, bem como do nascente psicologismo, e teve de responder aos desafios do intervencionismo do État-Providence gerado por Napoleão III. Aliás, na altura, a expressão ciência política passa a significar o estudo da psicologia dos povos, marcada pelo nacionalismo místico do republicanismo francês que iniciou a procura de coisas como o caráter nacional, a consciência nacional, a alma dos povos ou a personalidade básica das nações. As sciences politiques à francesa, marcadas pelo desafio da derrota face aos alemães transformaram-se numa espécie de irmão-inimigo das ciências cameralísticas do vizinho de além-Reno. Émile Boutmy, por exemplo, insistia na necessidade do estudo das causas que levaram à guerra, procurando fazer uma história contemporânea, ou uma história do presente, contra os modelos de história antiga. Já o sociologismo positivista procurava fazer uma comparação estrutural e tendia a perspetivar as forças e as fraquezas de cada povo.

Centro de Estudos Germânicos (1918)

Este modelo ressurgirá depois da Primeira Grande Guerra de 1914-1918, quando as forças armadas francesas instituem um Centro de Estudos Germânicos em Estrasburgo, para o estudo do inimigo. Curiosamente, é deste Centro – onde ensinará, por exemplo, René Capitant – que surgem das primeiras análises ao fenómeno do totalitarismo nazi. São também alguns dos militares formados na mesma entidade que constituem um dos núcleos iniciais da parte não-comunista da própria Resistência. Hoje, o Centro, integrado na Universidade Robert Schuman, é parceiro do próprio Instituto de Estudos Políticos, instituído em 1945, trabalhando em conjunto com o Instituto Superior de Estudos Europeus, sendo marcante, em todos eles, o culto pela memória gaullista.

Uma nova science royale.

De qualquer maneira, a École Libre passou a entender as sciences politiques como uma nova science royale para uso da III República, gerando-se um centro fundamental de formação das novas elites administrativas francesas, de acordo com uma das divisas do próprio Boutmy, defensor de l’empire de l’esprit et le gouvernement par les meilleurs. O Estado-cérebro social só poderia pensar e actuar através das suas elites. O trabalho mais significativo da primitiva escola é o de Charles Benoist, La Politique [1894], que parte da tríade Estado, Soberania, Governo para, em seguida, analisar O Poder Político, findando com a análise dos Órgãos e Funções do Estado.

Outras obras da mesma geração são os de Léon Donnat, La Politique Expérimentale [1885], e de Théofile Funck-Brentano, La Politique. Principes, Critiques, Réformes [1892]. Na mesma linha, destaque para os precedentes Principes de la Science Politique de Esquirou de Parieu, surgidos em 1870, quando a ciência política ainda queria dizer, à maneira do krausismo, filosofia histórica, social e moral, modelo que ainda será seguido por Edmond Chevrier, em Les Éléments de la Science Politique [1871], por Paul Janet, em Histoire de la Science Politique dans ses rapports avec la Morale, na Segunda edição de 1872, e por Émile Acollas, em Philosophie de la Science Politique [1877]. Em todos estes trabalhos, o sociologismo positivista mistura-se com as primeiras reflexões francesas sobre o intervencionismo estadual, invocando-se tanto o socialismo catedrático alemão como a Escola Social de Le Play.

A obra de Paul Leroy-Beaulieu (1843-1916), L’État Moderne et ses Fonctions, 1890, constitui uma espécie de magna glosa de toda essa geração. De qualquer maneira, a École Libre apenas procedia ao estudo das diversas ciências políticas, como a economia, as finanças, o direito público e as doutrinas. Em 1886 criavam-se os Annales de l’École Libre des Sciences Politiques e, em 1900, já se organizava um Congrès des Sciences Politiques. No mesmo sentido, refira-se a criação em Florença da Scuola Cesare Alfieri di Scienze Sociali, donde emergirá, a partir de 1883, a Rassegna di Scienze Sociali e Politiche. Voltando a França, importa salientar o aparecimento de novas publicações periódicas, como Année Politique, a partir de 1875, Revue Politique et Parlementaire, em 1894, e Revue de Droit Public et de la Science Politique, 1894. Na literatura francesa, o positivismo sociologista era marcante nas obras de Alfred Espinas (1844-1922), especialmente em Les Societé Animales [1877], onde desenvolvia o princípio da sociedade como organismo, Alfred Fouillée (1838-1912), em Psychologie des Idées-Forces [1893], La Science Social Contemporaine [1880] e Psychologie du Peuple Français [1898].

Do mesmo modo, importa destacar uma galeria de autores onde se inscrevem os francófonos Émile Durkheim, com La Division du Travail Social [1893] e Les Régles de la Méthode Sociologique [1894], Guillaume de Greef, em L’Évolution des Croyances et des Doctrines Politiques [1895], Lucien Lévy-Bruhl, em La Morale et la Science des Moeurs [1903] e Les Fonctions dans les Societés Inférieures [1909], bem como René Worms (1869-1926), em Organisme et Societé [1896] e Philosophie des Sciences Sociales [1904].