Colaboracionismo em França

O drama do colaboracionismo atingiu particular dramatismo em França, dividida entre a libération  e a collaboration, dado que milhões de franceses foram ao mesmo tempo pétainistas e gaullistas, considerando a condenação do movimento da França livre como puramente formal e persuadidos que o general de Gaulle e o marechal Pétain acabariam por se juntar, conforme as palavras de Alain Peyrefitte. O governo de Vichy Tudo começa em 16 de junho de 1940 quando se forma o governo de Pétain que, no dia seguinte, logo apela ao cessar fogo, para, no dia 21, assinar o armistício com o invasor alemão.

Enquanto, no dia 18, a partir da BBC de Londres, de Gaulle lança o apelo para resistência. Eu, general de Gaulle, atualmente em Londres, convido os oficiais e os soldados franceses que se encontram em território britânico, ou que venham a encontrar-se nele, a pôr-se em contacto comigo. Haja o que houver, a chama da resistência francesa não deve extinguir-se e não se extinguirá. O governo de Vichy vai gerir em regime de colaboração dois quintos do território do hexágono, instalando um État Français. Entretanto, De Gaulle ensaiava uma nova forma de legitimidade, com a criação em 24 de setembro de 1941 do comité nacional francês.

Que o diga a visita de Pétain a Paris, em abril de 1944, onde este foi saudado entusiasticamente pela multidão, de forma tão calorosa quanto esta vai receber De Gaulle, cujo governo se instala aí, a partir de setembro de 1944. O État Français de Vichy fora instalado pelo parlamento legítimo da III República eo governo de Pétain não se reduzia ao apoio dos fascistas franceses. Para não falarmos nas recentes revelações sobre a adesão de François Mitterrand, importa sublinhar que entre as forças vivas que o apoiaram estiveram desde antigos partidários da Europa briandista como homens de esquerda que acabaram por adotar o nacional-socialismo. Veja-se Marcel Déat (1894-1955), antigo deputado socialista, adepto do pacifismo esquerda, que criticando o conservadorismo pétainista fundou um partido o Rassemblement National Populaire, que aderiu ao revolucionarismo nacional-socialista. Repare-se em Pierre Laval (1883-1945), ex-militante da extrema-esquerda, que foi chefe do governo em 1931-1932, ministro dos estrangeiros em 1934 e novamente primeiro-ministro de 1935-1936, que foi um dos principais colaboradores de Pétain. E nem sequer pode deixar de falar-se numa resistência à maneira de Vichy, especialmente a partir do governo do almirante Darlan, a partir de 13 de outubro de 1940, especialmente com os delegados deste Governo no norte de África, como o general Weygand e depois o general Giraud, representantes de um importante grupo de oficiais franceses que eram ao mesmo tempo anti-alemães e anti-gaullistas. Aliás, este grupo de oficiais chegou a concluir, em junho de 1942, um acordo com os norte-americanos, que permitiu o desembarque aliado no norte de África. Desde 17 de setembro de 1944 estava instalado em Paris o governo provisório da República Francesa, presidido por de Gaulle, mas a memórias doíam. Em 11 de novembro de 1942, os aliados desembarcam no norte de África. O almirante Darlan, vice-presidente do regime de Vichy, estacionado em Argel, não impede as tropas aliadas da ocupação militar. Como reconhece o próprio Eisenhower, em telegrama enviado a Roosevelt, é preciso recordar que as hostilidades em Marrocos cessaram por ordem de Darlan e não pela conquista militar completa. Surgem então as divergências entre Giraud, apoiado pelos USA, e De Gaulle, levando a que em 3 de junho de 1943, quando se constitui o comité de libertação nacional, este ainda tenha um presidência colegial dos dois generais, que só terminará em novembro, com a ascensão de de Gaulle, até à transformação do comité em governo provisório, que ocorre em 2 de junho de 1944. Os desentendimentos do norte de África, onde também intervém Monnet como intermediário junto dos americanos e o ofuscamento de De Gaulle nas grandes conferências de partilha do mundo, deixam-no, para sempre, com um ressentimento face aos norte-americanos. Como ele vai dizer nas suas Mémoires de Guerre, eis que os Estados Unidos trazem para os grandes negócios sentimentos elementares e um política complicada.

Justiça política da épuration

A França entra na épuration e redescobre a justiça política robespierrriana da salvação pública. A nova democracia vai entrar no corte cirúrgico das memórias, através de tribunais revolucionários e de justiças populares e fuzilamentos. Havia pena de morte. Pétain, Laval, Brasillach, Maurras… A partir de que momento deixou de se condenar um francês. Quandos os comunistas deixaram de obedecer ao pacto Hitler-Estaline. Ou desde quando Mitterrand passou da colaboração à colaboração e começou a entrar na resistência. A França era ela própria a Europa. Era o processo da Europa que estava em causa.