Civilização e cultura, Confronto entre

Este confronto entre cultura e civilização vai constituir um dos principais tópicos do pensamento alemão deste começo deste nosso século.

Civilização e cultura, Confronto entre (Thomas Mann) - Thomas Mann, por exemplo, considera que a cultura tem a ver com a alma (seele) enquanto a civilização está mais relacionada com o inteleto ou o espírito (geist). Para ele “a cultura é o princípio arquitetónico da organização estética, que conserva, protege e transfigura a vida”, enquanto “a civilização é o Espírito no seio da razão, afinamento dos costumes, dúvida, progresso das Luzes, dissolução, enfim. ”
No plano da teoria do Estado esta distinção vai manifestar-se em Paul von Sokolowski que na sua obra Politik und Rechtsphilosophie der Staat, de 1932, considera que o verdadeiro fim do Estado é “a realização de uma síntese perfeita da civilização e da cultura”. Para ele, “civilização designa a função que o homem exerce lutando com as forças externas da natureza; cultura designa a função que o homem exerce lutando com as forças internas da natureza, os impulsos naturais”. Se a civilização corresponde às divindades e ao dogma, a cultura tem a ver com uma exigência moral interior.

Civilização e cultura, Confronto entre (Lord Acton) - Lord Acton considera que ” o Estado pode no decurso do tempo produzir uma nacionalidade; mas que a nacionalidade deva constituir um Estado é contrário à natureza da moderna civilização”. Este católico britânico referia mesmo que “os Estados substancialmente mais perfeitos são aqueles que… abrigam várias nacionalidades distintas sem oprimi-las”. Mais que “o processo de civilização depende de trancender-se a nacionalidade… As influências que são acidentais cedem àquelas que são racionais… As nações almejam o poder, e o mundo a liberdade”

Civilização e cultura, Confronto entre (Fernando Pessoa) - Para Pessoa, a nação é entendida como “um conceito puramente místico”, como “um meio de criar uma civilização”, como um “organismo capaz de progresso e de civilização”. Pessoa considerava que “toda a criatura que hoje luta com a Alemanha deve saber que está lutando pelos princípios seguintes: 1. A Civilização está acima da Pátria. 2. O Indivíduo vale mais do que o Estado. 3. A Cultura vale mais do a Disciplina”

Civilização e cultura, Confronto entre (Maurice Hauriou) - Maurice Hauriou considera expressamente que “o Estado não existiu sempre, é uma formação política de termo de civilização; as sociedades viveram muito mais tempo no regime de clã, tribo e suserania feudal que no regime de Estado”.

Civilização e cultura, Confronto entre (Toynbee) - Também Arnold Toynbee chegou a idêntica conclusão quando considerou o Estado Nação como incapaz de história, dado que esta apenas seria possível para aquilo que qualifica como “civilizações”. Arnold Toynbee, “numa civilização em crescimento, a um desafio opõe-se uma réplica vitoriosa que vai imediatamente gerar um outro desafio diferente ao encontro do qual se ergue uma outra réplica vitoriosa” É evidente que o estatismo moderno nasceu à imagem e semelhança das reminiscências romanas. Daquela Roma cuja “engenharia política”(Agostinho da Silva) criou uma espécie de civilização de Estado.