Ciência

Ciência - Do latim scientia, tradução do nome grego mathêma. Esta, segundo Pinharanda Gomes, corresponde a um triângulo cujos lados equivalem à dianóia (as ciências preparatórias da mathêma), a epistêmé (a teoria das ciências) e a téknê (ciências práticas ou aplicadas, tendo em vista fins concretos, que se subordinam a uma pragmática). Trata-se de um conceito anterior à noção platónica de epistêmé, conceito integrado, envolvendo a teoria e a prática das ciências. Aquela intenção de rigor e de objetividade que implica um esforço racional para substituir a opinião (dóxa) pelo conhecimento (episteme). Essa perspetiva que pretende libertar-se do contingente da opinião, procurando o verdadeiro, através da elaboração de um relato (logos) que, neste sentido, contrasta como o mítico (mythos). Um esforço que, contudo, não parte de uns quaisquer primeiros princípios, para atingir a conclusão. Bem pelo contrário, a investigação deve partir da opinião, pesquisando os topoi, os lugares comuns, a partir da linguagem e das opiniões dos homens comuns. Deve partir da realidade, das circunstâncias históricas, do contingente. Assim se simbolizava o ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Voegelin, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências. Acresce que, neste nosso tempo de aldeia global da comunicação, onde o de quod libet se processa através da receção quase passiva dos mass media, a universidade tem de assumir tanto a função de ensinar a dar voz ativa ao auditório como também a de ajudar a transformar as opiniões dispersas num conhecimento científico, desse que, segundo Jürgen Habermas, é capaz de ajustar a alma ao movimento ordenado do cosmos às proporções do universo, através daquilo que Ortega y Gasset referia como o ensimesmamento.

Ciência - Esforço racional para substituir a opinião (doxa) pelo conhecimento (episteme). Impõe: distância e objetividade; observação e experimentação; formalização e sistematização.

Ciência, cristianismo, democracia (1967) - Golbery do Couto e Silva, em Geopolítica do Brasil, 1967, considerando que os objectivos nacionais do Brasil são integração nacional, autodeterminação, ou soberania, bem-estar, progresso, salienta que os mesmos se integram naquilo que qualifica como essência do Ocidente, a tríade ciência, cristianismo, democracia.

Ciência livre de valores (Wertfreiheit) - Proposta de Max Weber, segundo a qual a ciência só pode dizer o que nós queremos e o que podemos, mas nunca o que devemos. A objectividade implica a não valoração, apesar dos valores poderem ser objeto da ciência. A proposta tem, na base, a radical distinção kantiana entre ser e dever-ser, considerando-se que os valores são múltiplos e estão em conflito insanável, pelo que julgar a validade dos valores é uma questão de fé. ESPE I, p. 184.

Ciência natural do Estado - Proposta de autores como Constantin Frantz, quando consideravam o Estado como uma entidade natural com uma estrutura essencialmente orgânica.

Ciência política e direito - A visão juridicizante do político. O Estado como juristenmonopol. A ideia arquitetónica da teoria geral do Estado, de Jellinek a Marcello Caetano. A defesa do direito constitucional como scientia scientiarum do político enquanto desviacionismo ideológico de uma metodologia científica. A perspetiva do jurista como o novo legista. — Reflexos da ideologia em Portugal. A Escola de Direito Público de Lisboa e os constitucionalistas políticos. — A necessidade da abordagem politológica das ordens normativas, nomeadamente do direito. Ciência

Ciência política e ciências da vida - Outra área de interesse indiscutível está na relação entre a política e as ciências da vida, abrangendo toda a área da biopolítica, isto é, das relações entre as ciência da vida e a ciência política, o que inclui as pesquisas na etologia, na neurofisiologia e na psicologia social, bem como nos domínios da chamada engenharia genética. Se é imprescindível o estudo dos pioneiros da etologia e da sociobiologia, na linha dos estudos de Edward Osborne Wilson [1975 e 1978], Eibl-Eibesfeld [1975] e Barash [1977], importa reconhecer que hoje não bastam os esquemas de Lorenz, Wilson e Ardrey, dado que, principalmente a partir da publicação, por Roger Masters, de The Nature of Politics, em 1989, houve uma espécie de reconciliação entre a democracia e as ciências naturais. Afinal, os paralelismos entre a biologia, a etologia e a política parecem não dar apenas razão a Maquiavel, a Hobbes e aos elitistas contemporâneos. Também Masters considera que o behaviorismo está morto e que se torna possível uma aliança metodológica entre as ciências ditas naturais e as ciências ditas humanas, actualizando-se o esforço de Ludwig von Bertalanffy. O novo naturalismo da biopolítica também permite que se transcenda o dualismo factos/valores e que se justifique a própria democracia com as novas descobertas da biologia; e o pré-romantismo de Rousseau também pode ter razão, ao contrário daquilo que continuam a proclamar algumas caricaturas etologistas.

Ciência política e estratégia - As teorias do Estado Força e a antropogeografia. Estratégia, realismo político e guerra fria. Ciência política e estratégia depois do fim do comunismo.

Ciência política e filosofia - A filosofia política como génese do estudo da política. A procura da boa sociedade e do melhor regime em Aristóteles e a concepção da política como ciência arquitetónica, onde até se integrava a religião. — As três ondas da modernidade e a decadência da filosofia política. O Maquiavelismo e a Razão de Estado. O Iluminismo. O Cientismo. A decadência da filosofia política. — O processo contemporâneo de renovação da filosofia política, com o regresso à problemática neoclássica. A influência de Eric Voegelin, Leo Strauss e Hannah Arendt. — O movimento contemporâneo de regresso à filosofia prática e à hermenêutica. Da Escola de Friburgo às teses neoescolásticas (Vittorio Possenti). Heidegger, Gadamer e a teoria crítica da Escola de Francoforte (Adorno, Horkheimer, Marcuse e Habermas). — Os atuais defensores da ciência política como ciência arquitetónica. — A teoria política como um dos ramos da ciência política.

Ciência política e história - A história das ideias políticas. A sociologia histórica do político. Os modelos neomarxistas (Barrington More, Immanuel Wallerstein, Charles Tilly, Theda Skockpol) e neodesen-volvimentistas (Shmuel Eisenstadt, Stein Rokkan, Reinhard Bendix). A arqueologia do Estado em Portugal.

Ciência política e marxismo - Assinale-se, em primeiro lugar, o movimento de return to the State protagonizado pelo neomarxismo à procura de uma teoria do Estado, o chamado neostatist movement, em que se destacam nomes como Theda Skocpol, Ralph Miliband, Martin Carnoy, Stephen Skowronek e Perry Anderson. Aliás, depois de Theda Skocpol ter proclamado a necessidade de Bringing the State Back In, o próprio David Easton, na American Political Science Review de 1988, criticou duramente tal return to the State, qualificando-o como uma tentativa de invasão do universo cultural norte-americano por uma corrente onde Marx reaparecia através de Gramsci, Althusser, Poulantzas ou Claus Offe, embora compensado com algumas pitadas de Max Weber e de Otto Hintze. A este respeito, importa assinalar que o neomarxismo constitui ainda um dos mais importantes subsolos filosóficos do pensamento político ocidental. Há os neomarxistas críticos, herdeiros da Escola de Frankfurt, como Habermas, os existencialistas, na linha de Sartre, os freudomarxistas, desenvolvendo Marcuse, os fenomenologistas, seguindo Merleau-Ponty, não faltando os que invocam um regresso a Hegel, como Lukács, e à práxis, na senda de Gramsci, ou estruturalistas, nos moldes de Althusser. Não faltam sequer os marxistas ditos liberais, como Michael Harrington. A heterodoxia nascida desse subsolo filosófico, principalmente no universo anglo-saxónico, atingiu tais níveis que até deu origem a um marxismo não-sovietista e mesmo anti-sovietista. De qualquer maneira, esse lastro foi constante desde os anos quarenta, ao ler Paul Sweezy ou a bibliografia editada pelo clube da New Left. Nas décadas de sessenta e setenta, foram eles que invocaram o Estado e, atacando o pluralismo, elaboraram inúmeros estudos sobre a estrutura do poder, utilizando todo um manancial de categorias marxistas em ciências sociais em vários estudos empíricos. Outra foi a perspetiva da Escola Crítica de Frankfurt, emigrada nos Estados Unidos, em que se destacaram Theodor Adorno e Marx Horkheimer, seus pais-fundadores, bem como a geração de Franz Neumann, Erich Fromm e Otto Kirchheimer. Com o regresso da Escola à Alemanha, a geração de Claus Offe, Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas, principalmente depois da morte de Adorno, em 1969, entrou em conflito com o marxismo ortodoxo e foi hostilizada pelos movimentos equivalentes à contra-cultura e à New Left dos anglo-saxónicos, nomeadamente pelos movimentos da contestação estudantil, aproximando-se de muitas das posições de Hannah Arendt.

Ciência política e nação - As viagens sobre o passado e o futuro da entidade estadual são também acompanhadas pelas interrogações sobre a nação e a própria identidade política, muito especialmente num tempo de globalização da política. Aliás, depois do ano 1989, tornou-se patente a crise do Estado Soberano e assistiu-se, ao invés, ao regresso da nação. Um dos principais manuais de relações internacionais, o de Jean-Baptiste Duroselle, assume mesmo o título principal de Toute Empire Périra [1992], acompanhando o ritmo da mais recente teorização e reflexão sobre o nacionalismo. Neste domínio, são de referir os estudos de Barbara Ward [1966], E. H. Carr [1968], Mario Albertini [1969], Jean-René Suratteau [1972], E. Kamenka [1973], Louis Snyder [1976], Setton-Watson [1977], H. A. Winkler [1978], J. -M. Leclercq [1979], Jean Plumyène [1979], Roger Martelli [1979], Jacob-Leib Talmon [1980], C. R. Foster [1980], John A. Armstrong [1982], John Breully [1982], Bennedict Anderson [1983], Ernest Gellner [1983 e 1994], Anthony Smith [1981, 1983, 1986, 1991 e 1995], Elie Kedourie [1985 e 1993], Jean-Luc Chabot [1986], J. M. Blaut [1987], Pierre Caps [1987], Pierre Fougeyrollas [1987], John Hutchinson [1987 e 1995], Immanuel Wallerstein e Étienne Balibar [1988], P. Alter [1989], Jean-Yves Guiomar [1990], Pierre-André Taguieff [1990 e 1991], Bernard Crick [1991], Gil Delannoi [1991], H. Goulbourne [1991], J. G. Kellas [1991], Alain Minc [1991], Dominique Schnapper [1991 e 1994], Paul Brass [1992], Alan Milward [1992 e 1995], Pierre Birnbaum [1993], Gidon Gottlieb [1993], Michel Wievorka [1993], Liah Greenfeld [1993], Eric Philippart [1993], Walker Connor [1994], Samir Amin e Joseph Vansy [1994], Paul Sabourin [1994], David Hooson [1994], Noelle Burgi [1994], Berch Berberoglu [1995], Geoffrey Howe [1995], Yael Tamir [1995], Frederico Romero [1995], Michael Lind [1995], Frances Lynch [1995], David Miller [1995], Geoffrey Eley [1996], Kathryn Manzo [1996].

Ciência política e sociologia - Diferença entre a ciência política e a sociologia política, apesar da coincidência no objeto. A sociologia política como o estudo dos fenómenos políticos enquanto fenómenos sociais, preocupando-se fundamentalmente com os micropoderes; a ciência política como o estudo dos fenómenos políticos superiores, preocupando-se, sobretudo, em integrar os poderes no Poder. — A ciência política contemporânea nascendo do impulso do sociologismo, e como reação contra o normativismo e contra a análise formal das instituições políticas. — As escolas elitistas e as escolas pluralistas de sociologia política. Da teoria da classe política, por oposição à teoria da divisão de poderes, ao estudo da poliarquia.

Ciência política e teologia - A homologia do sagrado e do profano. Dos reis taumaturgos e vigários de Deus às religiões civis ou seculares. Do Estado Igreja à laicização. A tensão entre o Estado Tradicional e o Estado Moderno (a tese de Julius Evola). A tensão entre o centro (o puro) e a periferia (o impuro). O sagrado como aquilo que não é discutido, mas que forma o plano de toda a discussão. A dessacralização contemporânea provocada pelo deicídio iluminista. A ligação entre a politicidade e a religião Sem cairmos no categórico da afirmação de Luc de Heusch, para quem a ciência política provém da história comparada das religiões (Pour une Dialectique de la Scralité du Pouvoir, 1962), temos de assinalar a íntima ligação entre a politicidade e a religião, desde a Cidade‑Estado que, na Grécia antiga, era também uma Cidade‑Igreja aos reis taumaturgos da Idade Média. Pensando particularmente na caso português, temos de recordar a lenda do milagre de Ourique, verdadeiro mito fundacional da portugalidade que ainda hoje se inscreve no escudo nacional português. Como diz Georges Balandier a homologia do sagrado e do político só o é na medida em que estes dois conceitos são regidos por uma terceira noção que os domina: a de ordem ou de ordo rerum (Antropologia Política, p. 114) A relação entre o Estado e a Igreja. Não há dúvida que no contexto ocidental europeu o Estado nasceu como uma entidade ligada à Igreja, de certa maneira, legitimado pela Igreja, embora potencialmente autónomo relativamente à mesma entidade e, por vezes, em conflito com ela. A independência portuguesa, por exemplo, teve que ser reconhecida ou legitimada pela Santa Sé, mas a monarquia donde resultou, a monarquia asturo‑leonesa, herdeira da monarquia visigótica, estava intimamente ligada à Igreja. Com efeito, pelo menos desde a conversão de Recaredo ao catolicismo, em 589, a referida monarquia dos visigodos se não se assumiu como teocrática estava eclesialmente condicionada tanto a nível da doutrina ‑ basta recordar a influência marcante das posições de S. Isidoro de Sevilha ‑ como a nível prático ‑ principalmente pelo papel institucional dos Concílios de Toledo, concilios nacionais da Igreja Católica, participados pela nobreza, onde eram eleitos os reis. O Estado como um substituto monoteísta. Compreende-se, assim, que Pierre Legendre considere o Estado como entidade centralista que surgiu na Idade Média, mais precisamente, no século XII, como um presente da Igreja Católica e do direito canónico, sob o influxo do renascimento do direito romano. O mesmo Legendre refere, aliás, que o Estado Centralista seria um substituto monoteísta. Com efeito o poder político dos reis foi moldado à imagem e semelhança do Imperador romano, enquanto pontifice único, dando‑se, deste modo uma transferência para o Estado dos signos sagrados da omnipotência.
Do vigário de Deus à lei como Texto
O rei é o vigário de Deus. Isto é, está no lugar do Outro, representa-o, faz o discurso do Outro é uma simples voz da instituição. Também o Imperador detinha o oráculo; do mesmo modo como o o Pontifice era um simples mestre que apenas transmitia. A isto acresceria o facto de, com a centralização do poder real, se ter transformado a lei no seu principal instrumento. O rei passou a ser a lei viva e a lei transformou‑se no substituto do anterior Texto. Deu‑se, deste modo, a laicização do poder e a lei passou a ocupar um lugar eminente, verdadeiramente soberano [... ] tornou‑se a categoria fundamental, substitutivo daquela onde se justificava a Palavra do Pontifice. Como diz o mesmo autor, visou induzir‑se o amor da subordinação no coração do povo, através do amor da lei e a lei laica tende a substituir‑se a toda a religião.

Os soberanos como parentes dos deuses - Temos, assim, como assinala Balandier, que os soberanos são os parentes ou os mediadores dos deuses. Mais: se o Estado e a Igreja são um só na origem, quando a sociedade civil é instaurada [... ] o Estado conserva sempre parcialmente um caráter de Igreja, mesmo quando se situa no termo de um longo processo de laicização. É da natureza do poder alimentar, sob uma forma manifesta ou oculta, uma verdadeira religião política (Antropologia Política, p. 106) E, como refere o já citado Luc de Heusch, qualquer governo, qualquer soberano, é, em graus diversos [... ] ao mesmo tempo, depositário da força física coerciva e sacerdote de um culto da Força. Para Roger Caillois, por seu lado, o soberano representa a harmonia cósmica e a coesão contra a dissolução e a transgressão, como é o caso do feiticeiro; é que o puro tem a ver com o centro, enquanto o impuro se situa na periferia (L’Homme et le Sacré, Paris, 1939). Também Marcel Gauchet salienta que a religião foi historicamente a condição de possibilidade do Estado e que o fundamento do Estado é o mesmo que a religião (Le Désenchantement du Monde, Paris, Gallimard, 1985). Julius Evola, por seu lado, considera que o Estado, segundo a tradição, é uma aparição do supra‑mundo e uma via para o supra‑mundo, isto é, uma ordem dirigida para a participação hierárquica na estabilidade espiritual em oposição ao caráter contingente, caduco, mutável, caótico e particularista próprio da existência materialista (op. cit., p. 51). Importa, neste contexto, destacar as influências religiosas na Revolução Francesa, matriz do nosso Estado contemporâneo. Para Albert Mathiez existe uma religião revolucionária, cujo objeto é a própria instituição social. Essa religião tem os seus dogmas obrigatórios (a Declaração dos Direitos, a constituição), os seus símbolos rodeados de uma veneração mística (as três cores, as árvores da liberdade, o altar da Pátria), as suas cerimónias (as festas cívicas), as suas orações e os seus cantos (Les Origines des Cultes Révolutionnaires, Paris, 1904). Também Rousseau fala em uma profissão de fé puramente civil, cujos artigos compete ao soberano fixar, não precisamente como dogma de religião, mas como sentimentos de sociabilidade sem os quais é impossível ser bom cidadão ou súbdito fiel. Considera, além disso, que os dogmas da religião civil devem ser simples, em pequeno número, enunciados com precisão sem explicações nem comentários. Carl Schmitt refere, por seu lado, que a Igreja Católica e o Estado do jus publicum europeum são os dois organismos mais evoluídos e mais estruturados do racionalismo ocidental. E isto porque a ideia de Estado de Direito Moderno impõe‑se com o deísmo, com uma teologia e uma metafísica que rejeitam o milagre fora do mundo e recusam a ruptura das leis da natureza, ruptura contida na noção de milagre e implicando uma excepção devida a uma intervenção directa do soberano na ordem jurídica existente. O racionalismo do Aufklãrung condenava a exceção sobre todas as formas. A convicção teísta dos autores conservadores da contra‑revolução pode, desde então, tentar apoiar ideologicamente a soberania pessoal do monarca com analogias tiradas da teologia teísta (Théologie Politique, pp. 168 e 46). Também Eric Weil salienta que a sociedade moderna define‑se, como todas as sociedades modernas, pelo seu sagrado, no sentido formal do termo, por aquilo que não é discutido, mas forma o plano de toda a discussão (Philosophie Politique, p. 96). Com efeito, quando se considera que o poder está acima da sociedade tende a aceitar‑se não só o fatalismo das causas naturais dos caprichos do céu, do mar, da crosta terrestre, segundo a expressão de Paul Valéry. Como a este respeito salienta Balandier manifestam o poder enquanto força, associada às forças que regem o universo e nele alimentam a vida, e enquanto potência de dominação. Associam a ordem do mundo, imposta pelos deuses, e a ordem da sociedade, instaurada pelos antepassados do princípio ou pelos fundadores do Estado. O ritual garante a manutenção do segundo [... ] Esta solidariedade do sagrado e do político, que faz com que os atos que lesam o poder (mas não os seus detentores) sejam sacrílegos, apresenta formas diversas consoante os regimes políticos; deixa o sagrado em primeiro plano no caso das sociedades sem Estado, faz prevalecer a dominação exercida sobre os homens e as coisas no caso das sociedades estatais (op. cit., p. 112). Outro autor como Leslie White refere mesmo que o Estado e a Igreja não passam de dois aspetos do mecanismo político do Estado tradicional. O Estado tem como missão garantir a integridade do sistema sócio‑cultural de que é uma parte e quer conservar o sistema como um todo (The Evolution of Culture). Muitos outros campos são objeto de trabalho da ciência política. Estudam-se as relações entre a religião e a política, retomando-se, por vezes, a própria teologia política. Com efeito, as mudanças da cena internacional subsequentes ao fim da guerra fria manifestaram, de forma inequívoca, a permanência do chamado teológico-político, demonstrando a força transnacional das religiões e o seu imediato impacto no domínio das coisas políticas. Sobre a matéria, importa peregrinar por Ernst Bloch [1923, 1954-1956, e 1973], Mircea Eliade [1957], Norman Cohn [1957 e 1970], Karl Barth [1958], Jürgen Moltmann [1964], Henri Desroche [1968, 1969 e 1973], Johann Baptist Metz [1970, 1972 e 1977], Joseph Comblin [1970], Dorothy Soelle [1972], François Biot [1972], Gustavo Gutierrez [1972], X. Xhaufflaire [1972], Alain Birou [1974], e Alfredo Fierro [1982]. Afinal, as boas intenções de certo racionalismo e de quase todo o positivismo fizeram com que muitos sectores ocidentais padecessem de um paroquialismo gnóstico que parece continuar a acreditar na superação do teológico e do metafísico. Mesmo quando, na intimidade, se mantinha a crença no transcendente e a humildade perante o mistério, os nome de Deus e dos deuses foram banidos do espaço público e do próprio esforço da racionalização e da ciência, criando dualismos pouco sadios, dado que o homem inteiro só pode decepar-se através da sublimação poética dos heterónimos. E aí estão, de novo, os fundamentalismos e os libertacionismos de matriz religiosa. O colosso soviético foi abalado a partir dessa reação contra a escravatura na consciência de cada um que os cristianismos ortodoxo, católico e protestante reavivaram, e o ano 1989 demonstrou que as brasas se reacenderam quando se soprou a cinza do doutrinarismo oficioso. Se o mundo islâmico continua estremunhado pela revolta fundamentalista aí estão os taliban do Afeganistão e muitos outros advogados de guerras santas eis que noutras zonas do mundo, como nas Américas e em África, algumas das religiões que parecem decadentes no mundo ocidental assumem a força da esperança. A ciência política não pode alhear-se desta exigência da realidade. E alguma importante bibliografia vai assomando. Mesmo entre nós, a recente Teoria das Relações Internacionais do Professor Adriano Moreira aparece marcada por este desafio, com a retomada das teses de Teilhard de Chardin, o diálogo com os teóricos do poder dos sem poder e a esperança nos encontros de Assis, protagonizados por João Paulo II. Em França, P. Michel, em Politique et Religion, de 1994, e o crescente regresso às análises do fenómeno islâmico abalaram certos preconceitos positivistas e laicistas. A retomada de Espinosa e a releitura de Donoso-Cortés e de Carl Schmitt impõem-se. Do mesmo modo, o estudo de obras como as de Moltmann e Metz podem ajudar-nos à estruturação de um modelo mais aberto à totalidade. Outras obras importa compulsar, como Michael Oakeshott, Religion, Politics and the Moral Life [1993], Marcel Gauchet, Le Désenchantement du Monde. Une Histoire Politique de la Réligion [1985], John W. Gruchy, Christianity and Democracy. A Theology for a Just World Order [1995], e Michel Novak, principalmente em Will It Liberate? Questions about Theology [1987] e The Catholic Ethic and the Spirit of Capitalism [1993].

Ciência política em Espanha A criação da Faculdade de Ciências Políticas e Económicas de Madrid (1944). A acção de Carlos Ollero, Tierno Galvan, Fraga Iribarne, Elias Diaz e Raul Morodo, bem como de professores de direito político noutras universidades, como Murillo Ferrol, Sanchez Agesta, Jimenez de Praga. A criação do Ilustre Colegio Nacional de Doctores y Licenciados en Ciencias Políticas y Sociología em 1953. A criação de Faculdades de Ciências Políticas y Sociologia na Universidade Autónoma de Barcelona, na Universidade de Granada e na UNED (1985). O Centro de Estudios Constitucionales, o Instituto de Investigaciones Sociológicas e o Departamento de Estudios Internacionales y Ciencia Política da Universidad del País Vasco. Começando por nuestros hermanos, direi que me impressiona a circunstância do atual pensamento espanhol nestes domínios ser marcado por inúmeras teorias do Estado, talvez um reflexo de alguns dos principais cultores da ciência serem provenientes do universo jurídico. Nomes como Luis Legaz y Lacambra, com El Estado de Derecho en la Actualidade [1934], Filosofia del Derecho [1953], Humanismo, Estado y Derecho [1960], Problemas y Tendencias de Filosofia del Derecho Contemporaneo [1971] e El Pactismo en la Historia de España [1980]; Luís Sanchez Agesta, com Lecciones de Derecho Politico [1943], Principios de Teoria Politica [1955], El Concepto del Estado en el Pensamiento Español del Siglo XVI [1959], Los Principios Cristianos del Orden Politico [1962], Los Campos de Investigación de la Ciencia Politica [1969], Direcciones de la Ciencia Politica Contemporanea [1973] e Elementos de Ciencia Politica [1986], Pablo Lucas Verdú, com Estado Liberal de Derecho y Estado Social de Derecho [1955], Introducción al Derecho Político. Transformaciones Sociales del Derecho Político Actual, Barcelona, J. M. Bosch, [1958], Curso de Ciencia Política [1969], Principios de Ciencia Política [1969-1973], La Luta por el Estado de Derecho [1975], Jose Maria Robles, com Por un Estado de Derecho [1964], e Eliaz Días, com Estado de Derecho y Sociedad Democratica [1966], De la Maldad Estatal y la Soberanía Popular [1984] e Sociologia y Filosofia del Derecho [1984], consequentes militantes da ideia de Estado de Direito, marcaram um notável ponto de encontro entre o direito político e a ciência política, enraizado numa profunda investigação histórica sobre a matéria, com realce para os trabalhos do anterior Instituto de Estudios Políticos e do actual Centro de Estudios Constitucionales, criado em 1977. Juan Beneyto recolhe os textos políticos espanhóis da Idade Média [1944] e procura fazer uma história das doutrinas políticas [1947 e 1964], e das origens da ciência política em Espanha [1949], para além de realizar uma análise da obra de Carl Schmitt, em Teologia Política como Teoría Política [1983]. José Antonio Maraval destaca-se, sobretudo, com Estado Moderno y Mentalidad Social [1972], bem como F. Elías de Tejada, em Historia de Filosofia del Derecho y del Estado [1946], para além de Antonio Truyol e Serra, sobretudo na monumental Historia de la Filosofia del Derecho y del Estado [1954-1982]. Mas outros autores são de salientar, como Luis Diez del Corral [1945], Francisco Javier Conde [1974], Manuel Fraga Iribarne, Tierno Galvan e Raul Morodo. Manuel Garcia-Pelayo analisa os mitos e os símbolos políticos [1959 e 1964], consagrando-se com Las Transformaciones del Estado Contemporáneo [1985, 2ª edição] e El Estado de Partidos [1986]. Manuel Jiménez de Parga salienta-se com Los Regimes Politicos Contemporaneos [1960 e 1987] e La Ilusion Politica. Hay que Inventar la Democracia? [1993]. Juan Ferrando Badiá teoriza a democracia perante a autarcia [1980] e o autoritarismo [1987], os vários modelos de Estado [1986] e os regimes políticos atuais [1987], sendo também autor de Estudios de Ciencia Política y Teoria Constitucional [1988]. Mais recentemente, nota-se o esforço de Ramón Garcia Cotarello, tanto no domínio da teoria do Estado [1981, 1986 e 1988], como na teoria dos sistemas [1979], dos partidos políticos [1985], para além de uma visão geral da democracia [1990]. Destaque-se a Introducción a la Ciencia Politica [1987, com J. L. Paniagua Soto] e um balanço sobre a ciência política em Espanha [1991]. Javier Pérez Royo é também outro dos teóricos do Estado [1980, 1987 e 1988], tal como J. Picó [1987]. Remedio Sánchez-Ferriz, com Introducción al Estado Constitucional [1993]; A Torres del Moral, em Estado de Derecho y Democracia de Partidos [1991]; José Rubio Carracedo, em Paradigmas de la Política. Del Estado Justo al Estado Legítimo [1990]; Ferrán Requejo Coll, Las Democracias. Democracia Antigua, Democracia Liberal y Estado de Bienestar [1990] e Teoria Crítica y Estado Social [1991]; Blas Guerrero, Nacionalismos e Ideologias Políticas Contemporáneas [1985]; C. de Cabo, Crisis del Estado Social [1986] e Teoría del Estado y Derecho Constitucional [1988]. Nestas encruzilhadas, destaca-se, sem dúvida, o Departamento de Ciencia Política y de la Administración da Universidade Complutense de Madrid, criado em 1944, onde atualmente laboram Manuel Pastor [1975, 1977 e 1981], Paniagua e Santa Maria, e donde emergiu o primeiro manual coletivo espanhol de ciência política [1ª edição de 1988]. Também em Madrid, importa referir o recente Departamento homónimo da Universidade Autónoma, dirigido por Fernando Vallespín, bem como a Facultad de Ciencias Políticas y Sociologia da Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), com Blas Guerrero, e a Facultad de Ciencias Políticas y Sociologia Leon XIII da Universidade Pontificia de Salamanca, estabelecida na capital de Espanha desde 1950. Em Barcelona, refira-se o Departament de Ciencia Politica i de Dret da Universitat Autonoma de Barcelona, bem como o Departamento de ciência política da Universitat Pompeu Fabra, dirigido por Ferran Requejo. Aliás, em 1988 a Universidade Autónoma, num acordo com o governo catalão, criou o Institut de Ciences Politiques i Socials. Na Facultad de Ciencias Politicas y Sociologia da Universidade de Granada, há um departamento de ciência política, herdeiro do anterior departamento de direito político. Na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca funciona uma área de ciência política. Na Faculdade de Direito da Universidade de Málaga existe também um departamento de Ciência Política, tal como na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do País Basco, em Bilbau. Mas, para além do mundo universitário, funcionam entidades com grande fulgor, como a Fundación Balmes, dirigida por Fernandez de la Mora, a Fundación Sistema, ligada ao PSOE, e a Fundación Canovas del Castillo. Refira-se também a Real Academia de Ciencias Morales y Politicas. Todo este esforço talvez seja explicável, em primeiro lugar, pela estreita relação que a cultura jurídico-política espanhola sempre manteve com a especulação germânica, reavivando um krausismo que, com Ortega y Gasset, aprofundou as relações com a filosofia dos valores e a sociologia da Verstehen. Acresce que se foram traduzindo em castelhano as grandes obras da politologia norte-americana. E quando Madrid o não podia, ou não queria, fazer, eis que o promoviam outros centros culturais de língua castelhana, como o México e a Argentina. Basta recordar a linha de publicações de ciência política e sociologia política do Fondo de Cultura Económica do México, onde podemos encontrar traduzidas quase todas as grandes obras da politologia anglo-saxónica. Mesmo na América de língua castelhana não são de esquecer recentes obras de reflexão política, simbolizadas nos trabalhos do chileno Manuel António Garretón, Reconstruir la Politica [1987] e do argentino Carlos Strasser, Para una Teoría de la Democracia Posible. Idealización y Teoría Política [1990] e Para una Teoría de la Democracia Posible. La Democracia y lo Democrático [1991], sendo também de salientar outros autores como Atilio Borón, M. Cavarozzi e B. Martinez Vazquez.

Ciência política em França - A criação da École Libre des Sciences Politiques (1872), escola das ciências políticas e não de ciência política, onde pontificaram juristas, historiadores e geógrafos. O magistério de Funck-Brentano e Charles Benoist. Os grandes professores de direito público, nomeadamente Léon Duguit e Maurice Hauriou, e a respetiva assunção do sociologismo de Tarde e Durkheim. A criação da Fondation Nationale des Sciences Politiques e do Institut d’Études Politiques da Universidade de Paris. O ensino do direito constitucional no pós-guerra, com destaque para Georges Burdeau e Maurice Duverger. A passagem do direito constitucional à ciência política e a criação de um doctorat de science politique nas Faculdades de Direito. Os estudos metodológicos dos anos cinquenta. A criação em 1973 de uma agrégation de science politique, autonomizando a disciplina do direito público. A receção do funcionalismo e do sistemismo norte-americanos e a sociologie de la politique. A descoberta da antropologia política. O tratamento politológico do tema do Estado: Bertrand Badie e Pierre Birnbaum e a Sociologie de l’Etat, 1979; Blandine Barret-Kriegel, L’Etat et les Esclaves, 1979, Les Chemins de l’Etat, 1986. O regresso da filosofia política, na senda de Tocqueville e Aron: Simone Goyard Fabre, Luc Ferry e Alain Renaut (Universidade de Caen); Philippe Bénéton (Universidade de Rennes). De França, impõem-se-nos, sobretudo, os novos rumos de um pensamento autónomo sobre o político, de que destacaremos Simone Goyard-Fabre, professora nas universidades de Caen e Paris II, principalmente em Philosophie Politique. XVIème-XXème Siècles. Modernité et Humanisme [1987], mas também nas mais recentes obras Qu’est ce que la Politique? Bodin, Rousseau et Aron [1992], e Éléments de Philosophie Politique [1996]. Outra teorização magnífica deve-se à professora de Paris X, Blandine Barret-Kriegel, em L’État et les Esclaves, de 1979, Les Chemins de l’État [1986], e La Politique de la Raison e Propos sur la Démocratie. Essais sur un Idéal Politique [1994]. Há, no entanto que referir novas procuras de radicação, principalmente as de Luc Ferry e Alain Renaut, em Philosophie Politique [três tomos de 1984-1985] e La Pensée 68. Essai sur l’Anti-Humanisme Contemporain [1985]. Nessa linhagem se inscrevem autores mais recentes, como Olivier Beaud, em La Puissance de l’État [1994], Pierre Brunel, com L’État et le Souverain [1978], e, sobretudo, Nicolas Tenzer, do Institut d’Études Politiques de Paris, tanto em La Societé Dépolitisée. Essai sur les Fondements de la Politique [1990], como em Philosophie Politique [1994]. Também Chantal Millon-Delsol, da Universidade de Paris XII, em Les Idées Politiques au XXème Siècle [1991], retoma o grande e perene modelo da reflexão francesa sobre a política, dedicando largas páginas à originalidade do corporativismo salazarista. Com efeito, a cultura francesa é um pouco mais vasta do que aquilo que certos intelectuais portugueses, inspirados pelo gauchisme, pela nouvelle droite ou pelos neoliberais, nos continuam a semear com algum atraso. A França não é apenas o grupo de amigos que aplaudem Jacques Lang, que se pautam pelo enciclopedismo de Alain de Bénoist ou que continuam a repisar o propagandismo de Guy Sorman. Há um território bem mais vasto, tanto na reflexão sobre a política como nas várias áreas científicas da ciência política, nomeadamente o exemplo do espetador comprometido que foi Raymond Aron (1905-1983). No caso francês, importa salientar que o nome e o estilo da chamada sociologia política continuam a predominar. Aliás, segundo um inquérito levado a cabo pelo Institut d’Études Politiques de Paris, cerca de 42% das obras politológicas publicadas em França dizem respeito à sociologia política (isto é, à sociologia eleitoral, ao estudo das atitudes e dos comportamentos políticos, ao estudo dos partidos e da vida política), 23% à administração pública e às políticas públicas, 9% à história das ideias políticas, 7% à política comparada e 6% à teoria política, ficando os restantes 13% para a análise da política de outros países. Apesar de tudo, só a partir de 1985, com a publicação do Traité de Science Politique, dirigido por Jean Leca e Madeleine Grawitz, se estabilizou a consensualização de uma autonomia da disciplina, desencadeada a partir do gigantesco Traité homónimo de Georges Burdeau que foi sendo construído, durante vinte anos, a partir do pós-guerra. Entre as obras mais recentes de sociologia política, destaca-se Dominique Colas, da Universidade de Paris-Dauphine, com Sociologie Politique [1994], para além do já clássico manual de Philippe Braud [1992]. Nesta senda incluem-se tanto os manuais dos anos setenta, de Maurice Duverger, R. G. Schwartzenberg, Jean-Pierre Cot/Jean-Pierre Mounier [1974], François Cazel/Pierre Birnbaum [1971], e Chemillier-Gendreau/C. Courvoisier [1971], como alguns outros desta década de noventa, com destaque para os de Jacques Lagroye [1991], Claude Leclercq [1994] e Catherine Rouvier [1995]. O modelo da Introduction à la Politique, em que continua a pontificar o manual de Charles Debbasch e Jean-Marie Pontier, ambos da Universidade de Aix-Marseille, reaparece, em 1996, com Dominique Chagnollaud, da Universidade de Paris II. Numa perspetiva neoliberal importa também referenciar Philippe Bénétton que introduz no universo francês de ciência política as reflexões de Voegelin, Strauss e Hayek, enquanto que, com Pierre Birnbaum e Jean Leca, se assiste a uma superação do sociologismo sistemista norte-americano que ainda preponderava em Maurice Duverger, Jean-William Lapierre e R. G. Schwartzenberg. Bertrand Badie, marcado por Max Weber e Stein Rokkan, introduz um novo estilo culturalista na política comparada, acrescentando alguma mais valia às análises de Almond, Powell e Verba. Pelo menos, supera-se o etnocentrismo da matriz norte-americana, acentuando-se a circunstância do fator religioso ter moldado os processos de diferenciação política no Ocidente, distinguindo-se os modelos marcados pelo Catolicismo romano, com Estado forte, dos marcados pela Reforma protestante, com Estado fraco. Se regressa o estudo da questão nacional e da identidade política  aliás, a nation par excellence não podia deixar de aprofundar o estudo da questão nacional neste tempo de pandemónio, dá-se também um retour de l’État, para utilizarmos o título de uma obra de Yves Cannac, e surgem inovadoras teorizações sobre o Estado de Direito, cultivando-se a tradição das grandes reflexões sobre o fenómeno político superior. Os principais centros de investigação em ciência política continuam a ser as entidades herdeiras da École Libre de Sciences Politiques. Em primeiro lugar, temos a Fondation Nationale des Sciences Politiques, com destaque para o Centre d’Études et des Recherches Internacionales (CERI), com Bertrand Badie, Olivier Carré, Helene Carrère D’Encausse, Alfred Grosser, Jean Leca, Guy Hermet e Alain Rouquié, e para o Centre d’Études de la Vie Politique Française (CEVIPOF), com Jean Charlot, Pierre Favre, Jean-Luc Parodi, para além do Institut d’Études Politiques de Paris, gerido diretamente pela mesma Fundação. Vem depois a a velha Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne, onde actualmente se destacam Pierre Birnbaum, Philippe Braud, Noelle Burgi, Jean-Marie Cotteret, Yves Déloye, Marcel Merle, Dominique Pélassy, Evelyne Pisier e Charles Zorgbibe. Em Paris refiram-se também os departamentos de ciência política em Paris II e Paris IX-Dauphine, bem como o Institut d’Études Économiques et Sociales do Institut Catholique de Paris. Inúmeros outros centros são de assinalar, com destaque para os Instituts d’Études Politiques, fundados em 1945, como os de Estrasburgo, Bordéus, Grenoble, Lyon, Lille, Rennes, Aix-en-Provence e Toulouse, bem como para as Facultés de Droit et Science Politique de Caen, Reims e Rennes. A politologia francesa da atualidade, na sequência dos esforços de refundação de Maurice Duverger, Georges Burdeau e Marcel Prélot, e após o tratado organizado por Jean Leca e Madeleine Grawitz, assumiu uma espécie de autodeterminação face às influências anglo-saxónicas e tratou de retomar as grandes perspetivas da tradição cultural reflexiva, constituindo hoje uma fonte de inspiração para todos os espaços culturais que, como o português, devem aprofundar as raízes da respetiva autonomia sem se desenquadrarem do ritmo dos grandes líderes da investigação politológica mundial que, sem dúvida, continuam a ser os norte-americanos e os britânicos.

Ciência política em Portugal - Os estudos políticos nas Faculdades de Direito. A perspetiva do positivismo organicista (o papel de Manuel Emídio Garcia). A receção do sociologismo jurídico francês de Léon Duguit, na senda de Durkheim. Domingos Fezas Vital e a introdução do institucionalismo jusnaturalista e da filosofia dos valores. A importância da filosofia do Estado de Luís Cabral de Moncada e a receção das escolas neokantianas, neo-hegelianas e fenomenológicas. O magistério de Marcello Caetano e o aparecimento da Escola de Direito Público de Lisboa. A perspetiva da ciência política como ciência auxiliar do direito político e do direito constitucional. A influência dos modelos organicistas franceses e a receção tardia do modelo da teoria geral do Estado. — A receção da ciência política contemporânea nas Faculdades de Direito. O papel da escola de Rogério Soares em Coimbra. O ensino de ciência política na Faculdade de Direito de Lisboa: das vulgatas marxistas às tentativas pós-revolucionárias posteriores a 1977 — Rui Machete, Jorge Miranda e Marcelo Rebelo de Sousa. A influência dos constitucionalistas da Escola de Lisboa na génese e nas revisões da Constituição de 1976. — A politologia no ISCSPU e no ISCSP. O papel de Adriano Moreira na docência das cadeiras de Política Ultramarina (anos cinquenta), História das Teorias Políticas e Sociais e Política Internacional (anos sessenta). A edição dos manuais Ideologias Políticas. Introdução à História das Teorias Políticas (1964) e Ciência Política (1979). As reformas de 1980 e a criação do Mestrado em Ciência Política. Os doutoramentos em ciência política. Os núcleos universitários de história das ideias políticas e de sociologia do político. Os estudos políticos no ISCTE e na Universidade de Évora. O regresso à filosofia política em núcleos católicos de reflexão e de ensino. As revistas Análise Social, Estudos Políticos e Futuro Presente. A edição da Polis a politologia extra-universitária. Ciência -Sentimento religioso, 11, 90

Ciência política na Bélgica - Na Bélgica, o modelo dominante continua a ser o dos departamentos de ciências sociais e políticas, nas duas universidades de Antuérpia Saint-Ignatius (UFSIA) e Instelling (UIA) , na Universidade Católica de Bruxelas (ramo valão) e na Université Catholique de Louvain, onde, no Collège Jacques Leclercq, permanece o Département de Sciences Politiques et Sociales, fundado em 1892, com as suas três secções de antropologia, ciência política e sociologia. Mais vaga é a filiação da ciência política na Faculdade de Ciências Económicas, Sociais e Políticas das Facultés Universitaires de Saint-Louis de Bruxelas. Existem, contudo, departamentos autónomos de ciência política tanto na secção flamenga da Universidade Católica de Bruxelas como na Universidade Livre da mesma cidade, esta de tradicional influência maçónica

Ciência política na Irlanda - Na República da Irlanda destacam-se quatro centros universitários com departamentos especializados em ciência política: no University College de Dublin há um Department of Politics; no Trinity College, também de Dublin, existe um Department of Political Science, criado em 1994; na Universidade de Limerick a ciência política está incluída no Department of Government and Society; e na Universidade de Galway, no Department of Political Science and Sociology, surgido em 1964. Em 1982 foi fundada a Irish Political Science Association, sita em Limerick. Conta atualmente com cerca de duas centenas de membros e edita a revista Irish Political Studies.

Ciência política no Brasil - Do Brasil, se admiramos o esforço editorial tanto da Fundação Getúlio Vargas como da Editora da Universidade de Brasília, e se temos de reconhecer que o manual de Ciência Política do Professor Adriano Moreira muito deve ao desafio de uma experiência docente em terras brasileiras, onde também foi um dos coordenadores da edição d’O Legado Político do Ocidente, não podemos deixar de lamentar que grande parte do aparelho universitário da maior potência da língua portuguesa se tenha enredado nos cantos de sereia das ideologias, onde prepondera um neomarxismo que, apesar de adoçado pela filosofia do desejo à francesa, é fundamentalmente marcado pela importação da sociologia histórica da New Left anglo-saxónica para uso no Terceiro Mundo, apesar de, aqui e além, ser tingido pelas cores locais da chamada teologia da libertação. É evidente que no nosso vizinho do oceano moreno, há brilhantes exceções de pequenas ilhas de grande reflexão, com autores de dimensão internacional e um ritmo de publicações e traduções que nos causam inveja. Contudo, a média geral continua a pautar-se pela difusão de doutrinarismos e vulgatas que impedem a maior potência da língua portuguesa de encetar um movimento de recuperação que poderia abranger toda a lusofonia. Merecem destaque os arendtianos e heideggerianos como Celso Lafer [1979, 1980 e 1988], Djacir Menezes [1975], José Eduardo Faria [1978], Aloysio Ferraz Pereira [1980] e Leitão Adeodato, com os seus estudos sobre a legitimidade [1978 e 1989]. Fernando Henrique Cardoso é um clássico da escola sociológica desenvolvimentista [1967, 1971, 1975 e 1984], e nesta família de pensamento inserem-se autores como Álvaro Vieira Pinto [1956 e 1960] e Hélio Jaguaribe [1958 e 1962], em torno do Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Alguns nomes com dimensão mundial ainda marcam a cultura brasileira, com destaque para Miguel Reale [1934, 1940, 1960, 1963 e 1965] e Gilberto Freyre, e talvez valha a pena continuar a estudar Pedro Calmon [1952] e atender às recentes obras de Roberto Campos [1996] e Meira Penna [1988].

Ciência política no Reino Unido - No Reino Unido é criada a primeira cátedra de ciência política em Oxford, no ano de 1912, a que se segue, em 1914, outra, na London School of Economics and Political Science, escola que havia sido organizada em 1895, e em Cambridge, em 1928.

Antecedentes

O movimento funda-se numa anterior literatura, marcada pelos trabalhos de Herbert Spencer e em que importa referir Walter Bagehot (1826-1877), em Physics and Politics [1873], livro cujo subtítulo é explícito: reflexões sobre a aplicação dos princípios da herança e da seleção natural à sociedade política. Bagehot, também autor de The English Constitution [1865], é um dos principais responsáveis pela circunstância da darwiana struggle for life ter atingido a dimensão de teoria sócio-política. Outros autores que marcaram o nascimento da ciência política britânica foram o professor de direito em Oxford, Frederick Pollock (1845-1937), em An Introduction to the History of the Science of Politics [1890], e o professor de história moderna em Cambridge, John Robert Seeley (1834-1895), com An Introduction to Political Science [1896]. Ambos mantêm a ideia de ligação da ciência política à história, numa posição paralela à de Ahrens e numa perspetiva próxima da que fora adotada pelo francês Paul Janet (1823-1899), em Histoire de la Science Politique, dans ses Rapports avec la Morale, obra publicada em 1887 que constitui uma reedição da Histoire de la Philosophie Morale et Politique dans l’Antiquité et dans les Temps Modernes [1858]. Contudo, importa salientar o papel de Lorde John Acton (1834-1902), cujo magistério inventariou os grandes temas da política, nomeadamente as relações entre a liberdade e o poder, as relações entre o Estado e a Igreja e a teorização do princípio da nacionalidade.

Oxford
A primeira cátedra em causa, designada por Gladstone Professorship of Political Theory, teve como responsáveis, primeiro, W. G. Adams (1874-1966), de 1912 a 1933, e, depois Arthur Salter (1881-1971), de 1933 a 1944. Na primeira fase, a cadeira esteve no grupo de História Moderna e, na segunda, no âmbito da economia, Philosophy, Politics and Economics. Entretanto, em 1940, a cátedra era dividida, destacando-se uma de Administration and Government e outra de ciência política propriamente dita, a Gladstone Professorship of Social and Political Theory, onde se manteve Salter. Esta, entre 1944 e 1957, será regida por G. D. H. Cole (1889-1959), a que se seguirão Isaiah Berlin (de 1957 a 1967) e John Plamenatz (1912-1975)

London School of Economics
Na London School of Economics and Political Science, os regentes da cadeira de Political Science serão Graham Wallas (1858-1932), de 1914 a 1923; Harold Laski (1893-1950), de 1926 a 1950, Michael Oakeshott, de 1951 a 1969, e Maurice Cranston.
Cambridge
Já em Cambridge teremos Ernest Barker (1874-1960), de 1928 a 1939, Denis Brogan (1900-1974), de 1939 a 1967, e W. B. Gallie.
Outros pioneiros
Do mesmo modo, o médico Wilfred Trotter, em artigos publicados na Sociological Review, em 1908-1909, precede Freud, ao falar no subconsciente e no instinto gregário. Neste contexto, importa também assinalar Robert Morrison MacIver (1882-1970), em Community, a Sociological Heritage [1917], e The Elements of Social Science [1921], e William Halse Rivers Rivers (1864-1922), Psychology and Politics [1923].

Centros actuais
No Reino Unido situam-se algumas das principais instituições universitárias especializadas em ciência política, com destaque para a Universidade de Essex, no Department of Government, para a Universidade de Cambridge, no Department of Social and Political Studies  onde ensinam John Barber, John Dunn e Anthony Giddens , para a Universidade de Oxford, no Center for European Politics, Economics and Society do Nuffield College  onde ensinam David Miller e Byron Shafer  e no St. Anthony’s College  com Graham Lock e Hermínio Martins , bem como para a London School of Economics and Political Science, no Department of Government  com Brian Barry, Maurice Cranston e Kenneth Minogue , no Department of International Relations e no European Institute. Muitas outras universidades há que referir, com destaque para os departamentos de Politics existentes nas universidades de Bristol, Buckingham, Durham, Edimburgo, Exeter, Glasgow, Greenwich, Huddersfield, Keele, Leeds, Londres – no Queen Mary and Westfield College -, Newcastle, Nottinghan, Belfast – Queen’s University -, Reading, Sheffield, Southampton, Stirling, Sussex, York, para além dos de Government, em Brunel-Uxbridge e Manchester  onde ensinam David Farrell e Geraint Parry  e de Political Theory and Government, nomeadamente na Universidade de Gales-Swansea. A ciência política também se estuda em conjunto com as relações internacionais (universidades de Aberdeen, Birminghan, Hull, Kent, Lancaster, Warwick e no King’s College, departamento de War Studies da Universidade de Londres), em departamentos de estudos sociais e políticos (Universidade de East Anglia-Norfolk, Birkbeck College da Universidade de Londres e School of Politics and Communication da Universidade de Liverpool) e até em departamentos de história e política (Universidade de Middlesex), ou de política e filosofia (Manchester Metropolitan University). É pujante a Political Studies Association of United Kingdom, com sede na Queen’s University de Belfast. Reúne cerca de mil membros e edita vários periódicos, como Politics, Political Studies e PSA News.

 Ciência política norte-americana e o estudo do comportamento político, como reação contra o normativismo, pela análise da dinâmica das instituições públicas. Do estudo do political process (Bentley) estudo das instituições públicas como elas são, na sua dinâmica – ao estudo do comportamento político dos indivíduos integrados num determinado sistema social — a political action (Lasswell); do estudo do poder em geral ao estudo do political power e do process of making decisions, considerado como um political system (David Easton). A passagem de um estudo histórico, comparativo e evolucionista, à maneira de Comte e Spencer, a uma perspectiva analítica, descritiva e explicativa, à maneira behaviorista. A emergência da revolução pós-behaviorista. Sociologismo. Behaviorismo e sistemismo. — A vertente neoclássica, neo-romântica e neojusnaturalista da ciência política norte-americana (Leo Strauss, Eric Voegelin e Hannah Arendt), cujos cultores preferem chamar-lhe outra coisa: political philosophy (Leo Strauss); política pura e simplesmente (Arendt) ou science of politics (Voegelin). Apesar do esforço intelectual das universidades europeias, continua a preponderar a politologia norte-americana. Não apenas pela abundância quantitativa dos respetivos cultores, como também pela própria abundância de qualidade. Aliás, o pioneirismo norte-americano nos domínios da ciência política, logo acompanhado pelo esforço britânico, levaram o mundo anglo-saxónico a assumir uma preponderância dificilmente destronável. Ainda hoje, cerca de 90 % da produção bibliográfica mundial em ciência política provém do universo norte-americano. O atraso dos franceses quanto a uma consensualização sobre a ciência política impediu também que a própria cultura latina pudesse concorrer em termos quantitivos neste desafio da globalização. Um certo chauvinismo parisiense pode amargurar-se com a circunstância injusta de não ser citado nos manuais norte-americanos, e até verificar que outras politologias europeias não anglo-saxónicas, como a alemã e a italiana, são mais depressa acolhidas no seio da American Political Science. É a diferença que vai do minitel à internet e do logiciel ao software. Mas mais razões de queixa têm autores de língua castelhana, e nem sequer vale a pena medir a visibilidade do mundo da lusofonia nesse contexto, onde, infelizmente, abundam as próprias culpas intestinas. Mas a influência da atual ciência política norte-americana não significa necessariamente um corpo estranho aos modelos europeus do pensar e estudar a política. Essa preponderância é quase equivalente à influência que as correntes europeias tiveram na génese e no desenvolvimento da politologia norte-americana. Basta recordar as marcas da teoria geral do Estado germânica, do darwinismo e do psicologismo entre os pais-fundadores da disciplina de ciência política ou assinalar a importância dos emigrantes germânicos dos anos trinta e quarenta, com destaque para Hannah Arendt (1906-1975), Eric Voegelin (1901-1985), Leo Strauss (1899-1973), Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973), Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-1980), Ludwig Von Mises (1881-1973), Joseph Schumpeter (1883-1950), Carl J. Friedrich, Hans J. Morgenthau e o próprio Hans Kelsen (1881-1973). Kelsen, o professor e jusfilósofo austríaco, autor das teorias puras do direito e do Estado, responsável por fundamentais aprofundamentos do pensamento jurídico a partir dos anos trinta, é também um dos mais eminentes teóricos da democracia, principalmente durante o exílio norte-americano, destacando-se a obra Foundations of Democracy [1955-1956], onde recolheu esquecidos trabalhos publicados em 1920, 1925 e 1929. Austríaco é também Ludwig Von Mises, um dos patriarcas do neoliberalismo que, depois da Segunda Guerra Mundial, publica algumas das suas principais obras no exílio anglo-saxónico, com destaque para Omnipotent Government. The Rise of Total State and the Total War [1944], e Liberalism in the Classic Tradition [1962]. Da Europa também vêm os checoslovacos Joseph Schumpeter, autor de Capitalism, Socialism and Democracy [1942], e Hans Kohn, um dos precursores do entendimento dos fenómenos nacionalistas como actualmente vão explodindo em etnonacionalismos e pan-nacionalismos. Mesmo nos nossos dias, um italiano como Giovanni Sartori, que ensina e publica tanto em New York como em Florença, é o exemplo de alguns outros demonstradores da essencial unidade mental das formas políticas ocidentais. Aliás, a própria revolução norte-americana, como tão bem o demonstrou Hannah Arendt, enraíza-se nas profundidades de um pensamento e de uma prática consensualistas da Europa: não foi por acaso que Montesquieu serviu de guia para os constituintes norte-americanos. A tradicional perspectiva de certo dogmatismo francês que isola os anglo-saxons da restante Europa, só porque estes não aderiram aos modelos de Estado Moderno provenientes do absolutismo e da Revolução Francesa, ditados pelos compêndios únicos das universidades estadualizadas dependentes do aparelho de poder central, muitas surpresas terá quando verificar que as conceções do político que acabaram por conformar o Reino Unido e os Estados Unidos da América também poderiam ter vencido no restante mundo ocidental se este não tivesse adotado o jusconceitualismo da soberania una, indivisível, inalienável e imprescritível, iniciado pelo absolutismo da monarquia de direito divino e não desabsolutizado pelo não menos absoluto democratismo jacobino. O que impressiona na politologia norte-americana é um lastro de fidelidade face a uma conceção pluralista da democracia, bem diversa da perspetiva estadualista e jacobina que acabou por ser dominante no restante mundo ocidental. Daquela democracia concreta e existencial que atravessa o quotidiano do seu povo e o funcionamento das suas instituições, dessa filosofia democrática de vida que gerou um corpo político que é o único que nasceu plena e explicitamente da liberdade, da livre determinação dos homens em viver em conjunto e como tal trabalharem para um fim comum para utilizarmos palavras de Jacques Maritain. Contudo, é da ciência política norte-americana que também nos tem chegado a tragédia da ciência política, para utilizarmos uma expressão de David M. Ricci, isto é, o conflito entre a aceitação das técnicas científicas, herdadas do darwinismo social, do funcionalismo e do behaviorismo, e alguns dos pressupostos fundamentais dos ideais democráticos, nomeadamente o princípio da racionalidade dos cidadãos comuns. Um conflito que atingiu os níveis do paradoxal em plena guerra fria, quando os teóricos do neo-empirismo e do behaviorismo anglo-saxónicos que, no plano científico, clamavam pela neutralidade axiológica, acabaram por ser mobilizados por uma cruzada anti-sovietista, em nome da democracia, do pluralismo, da sociedade aberta e da ideologia dos direitos do homem. Vejam-se algumas das mais recentes contribuições para a recuperação do pensamento democrático, segundo a perspetiva pluralista, provindas das fileiras da politologia. Robert Dahl, por exemplo, o autor que cunhou o termo poliarquia, produziu nos anos oitenta três profundas obras de reflexão sobre a matéria: Dilemmas of Pluralist Democracy [1982], A Preface to Economic Democracy [1985] e o monumental Democracy and Its Critics [1989]. Samuel Huntington, consagrado especialista na mudança política e nas relações entre políticos e militares, elaborou, em 1993, uma curiosa tese sobre The Third Wave da democracia, que começa precisamente pelo nosso 25 de Abril e coloca a luta dos anticomunistas portugueses do Verão Quente de 1975 como ponto de partida para a eliminação dos regimes autoritários na Europa e para as posteriores revoluções de veludo que conduzirão ao colapso do sovietismo. Giovanni Sartori, em 1977, edita a sua Theory of Democracy Revisited, em dois volumes, onde tanto refere o debate contemporâneo como os problemas clássicos, retomando uma senda, iniciada em 1957, com Democrazia e Definizione. Mais recentemente [1993], estuda a democracia depois do comunismo e faz uma revisão crítica do conceito de totalitarismo.

Ciência política nos Países Baixos - Nos Países Baixos, refiram-se as universidades de Leyden, Vrije e Amsterdão. Na Suíça, destacam-se os departamentos de ciência política de Berna, Sankt Gallen, Genebra e Lausanne.

Ciências do espírito (Geisteswissenschaften) - Wilhelm Dilthey, contrariando as teses de Durkheim, opõe esta categoria à de ciências da natureza (Naturwissenschaft). Porque os fatos do espírito, ao contrário dos fatos naturais, não são dados e só podem ser apreendidos através de uma espécie de autognose (Erlebnis). Cada parcela tem, assim, que ser referida ao todo, pelo que importa descobrir as conexões de sentido, só sendo possível compreender as estruturas por meio da referência ao sentido. Segundo a terminologia inglesa, é sinónimo de ciências sociais. Dilthey.

Ciências finais ou teleológicas - Categoria utilizada pelos neo-kantianos da Escola de Marburgo, principalmente pelo jurista Rudolf Stammler. Nas ciências finais, por oposição às ciências da natureza, o temporalmente ulterior, o fim, seria condicionante do temporalmente anterior, o meio. Já nas ciências da natureza, os fenómenos seriam ordenados pela causa/ efeito, onde o efeito, enquanto temporalmente ulterior, surge condicionado pela cuasa, o temporalmente anterior.

Ciências políticas e administrativas - Com a reforma de Costa Cabral, constante da portaria de 10 de Março de 1843, quando o curso de direito passou a ter cinco anos, surgiu uma nova cadeira de Direito Administrativo e Direito Criminal (no 5º ano), a fim de não se aumentarem as disciplinas curriculares (treze), eis que o Direito Público Português vai juntar-se ao Direito Público Universal e das Gentes, surgindo a cadeira de Direito público universal, direito público português, princípios de política e direito dos tratados de Portugal com os outros povos; e ciência da legislação (3ª cadeira, do 2º ano). Aceitava-se então a diferenciação entre um direito político ou direito público interno, aplicado às relações internas duma nação entre governantes e governados, para utilizarmos palavras de Vicente Ferrer, e um direito público universal, direito público externo ou direito das gentes, aplicado às relações das Nações entre si. No tocante ao direito administrativo, importa salientar que só pela Carta de Lei de 13 de Agosto de 1853 surgiu uma cadeira autónoma de Direito Administrativo Português e Princípios de Administração separada do Direito Criminal, ao mesmo tempo que se instituía um Curso Administrativo, de três anos, anexo à Faculdade de Direito, em substituição de uma anterior ideia, aventada pelo Conselho Superior de Instrução Pública, em 1845, que visava a instituição de uma Faculdade de Ciências Económicas e Administrativas. Contudo, a Faculdade de Direito desde logo rejeitou a hipótese de uma instituição de ensino especial para tal matéria, como acontecia em Tubinga ou na Baviera, preferindo o exemplo espanhol de secções especializadas das escolas jurídicas, modelo que gerara, em 1842, uma Escuela de Administración. O Curso Administrativo português, regulamentado por Decreto de 6 de Junho de 1854, depois de uma boa aceitação inicial, depressa entrou em decadência, sendo abandonado. Aliás, esse curso chegou a ter a designação de curso especial de ciências políticas e administrativas e, caso tivesse tido êxito, dele podia ter nascido uma espécie de École Libre des Sciences Politiques à portuguesa. Neste domínio, só com a instituição da Escola Colonial, em 1906, é que teremos um domínio específico de estudos de administração independente das Faculdades de Direito, depois da Sociedade Geografia de Lisboa, num relatório de Março de 1878, subscrito por Luciano Cordeiro, o ter proposto. Acrescente-se que esta necessidade da procura de um direito administrativo, provocada pelo crescimento do aparelho estadual, principalmente pelo aumento do número dos funcionários administrativos, foi paralela à própria necessidade de um pensar globalista sobre a matéria, como virá a exprimir-se pelo surgimento de uma ciência política. Mas, entre nós, não nos foi possível ir muito além da simples exegese dos textos regulamentares. A figura híbrida do administrativista-politólogo não resulta do mero acaso. Tal como na cameralística alemã, também entre nós, o administrativista vestido de politólogo, ou o inverso, isto é, o modelo daquele que pretende ser politólogo, mas fica condenado ao mero administrativismo, constituem uma espécie que, sendo iniciada por Manuel Emídio Garcia, passa por J. T. Lobo de Ávila, Fezas Vital e Martinho Nobre de Melo e chega ao próprio Marcello Caetano.

Ciências, Classificação das Breve –  referência à classificação das ciências em Aristóteles: poein, as ciências do criar (lógica, retórica e poética); theorein, as ciências do saber (matemática, física e metafísica); e prattein, as ciências práticas ou do fazer (política, ética e economia). A política como ciência dos atos do homem enquanto membro da polis, incluindo no seu seio a própria religião. A política como ciência arquitetónica, com várias ciências subordinadas. — A perspetiva tomista. A política, a ética e a economia, consideradas como servas da teologia (ancillae teologiae), passam a ciências subordinadas. A teologia como a nova ciência arquitetónica. corte renascentista. A política libertando-se da teologia e distanciando-se da ética (maquiavelismo) e do direito (Razão de Estado e Absolutismo). A ideia moderna de ciência. Os fundamentos do Iluminismo. Do homem como dono e senhor da natureza ao homem como dono e senhor da sociedade. A descoberta da ideia de revolução.

Ciência e opinião - A distinção entre o conhecimento àcerca do contingente (a opinião ou dóxa) e o conhecimento das causas que são necessariamente verdadeiras. A ciência como esforço racional para substituir a opinião pelo conhecimento. A noção de Wissenschaft como conhecimento rigoroso e objetivo e as regras da metodologia científica. Distância e objetividade. Observação e experimentação. Formalização e sistematização. As propostas de Raymond Aron para a deontologia de uma actividade científica (não selecionar arbitrariamente os elementos da realidade e não os deformar; não selecionar arbitrariamente as palavras e as suas definições; não apresentar como certos e precisos fenómenos cuja própria natureza exlui precisamente a precisão; não determinar arbitrariamente o que é importante ou essencial; respeitar a liberdade de discussão e de crítica; praticar o bom uso dos juízos de valor). — As tentativas terceiristas. A classificação de Jean Piaget sobre as ciências sociais e humanas: ciências históricas, ciências jurídicas, disciplinas filosóficas e ciências nomotéticas, as quais procurariam enunciar leis científicas e recorrer ao método de verificação que sujeitam os esquemas teóricos ao controlo dos fatos da experiência.