Ciência política no Brasil

Do Brasil, se admiramos o esforço editorial tanto da Fundação Getúlio Vargas como da Editora da Universidade de Brasília, e se temos de reconhecer que o manual de Ciência Política do Professor Adriano Moreira muito deve ao desafio de uma experiência docente em terras brasileiras, onde também foi um dos coordenadores da edição d’O Legado Político do Ocidente, não podemos deixar de lamentar que grande parte do aparelho universitário da maior potência da língua portuguesa se tenha enredado nos cantos de sereia das ideologias, onde prepondera um neomarxismo que, apesar de adoçado pela filosofia do desejo à francesa, é fundamentalmente marcado pela importação da sociologia histórica da New Left anglo-saxónica para uso no Terceiro Mundo, apesar de, aqui e além, ser tingido pelas cores locais da chamada teologia da libertação.

É evidente que no nosso vizinho do oceano moreno, há brilhantes excepções de pequenas ilhas de grande reflexão, com autores de dimensão internacional e um ritmo de publicações e traduções que nos causam inveja. Contudo, a média geral continua a pautar-se pela difusão de doutrinarismos e vulgatas que impedem a maior potência da língua portuguesa de encetar um movimento de recuperação que poderia abranger toda a lusofonia. Merecem destaque os arendtianos e heideggerianos como Celso Lafer [1979, 1980 e 1988], Djacir Menezes [1975], José Eduardo Faria [1978], Aloysio Ferraz Pereira [1980] e Leitão Adeodato, com os seus estudos sobre a legitimidade [1978 e 1989]. Fernando Henrique Cardoso é um clássico da escola sociológica desenvolvimentista [1967, 1971, 1975 e 1984], e nesta família de pensamento inserem-se autores como Álvaro Vieira Pinto [1956 e 1960] e Hélio Jaguaribe [1958 e 1962], em torno do Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Alguns nomes com dimensão mundial ainda marcam a cultura brasileira, com destaque para Miguel Reale [1934, 1940, 1960, 1963 e 1965] e Gilberto Freyre, e talvez valha a pena continuar a estudar Pedro Calmon [1952] e atender às recentes obras de Roberto Campos [1996] e Meira Penna [1988].