Ciência política em França

A criação da École Libre des Sciences Politiques (1872), escola das ciências políticas e não de ciência política, onde pontificaram juristas, historiadores e geógrafos. O magistério de Funck-Brentano e Charles Benoist. Os grandes professores de direito público, nomeadamente Léon Duguit e Maurice Hauriou, e a respetiva assunção do sociologismo de Tarde e Durkheim.

A criação da Fondation Nationale des Sciences Politiques e do Institut d’Études Politiques da Universidade de Paris. O ensino do direito constitucional no pós-guerra, com destaque para Georges Burdeau e Maurice Duverger. A passagem do direito constitucional à ciência política e a criação de um doctorat de science politique nas Faculdades de Direito. Os estudos metodológicos dos anos cinquenta. A criação em 1973 de uma agrégation de science politique, autonomizando a disciplina do direito público. A recepção do funcionalismo e do sistemismo norte-americanos e a sociologie de la politique. A descoberta da antropologia política.

O tratamento politológico do tema do Estado: Bertrand Badie e Pierre Birnbaum e a Sociologie de l’Etat, 1979; Blandine Barret-Kriegel, L’Etat et les Esclaves, 1979, Les Chemins de l’Etat, 1986. O regresso da filosofia política, na senda de Tocqueville e Aron: Simone Goyard Fabre, Luc Ferry e Alain Renaut (Universidade de Caen); Philippe Bénéton (Universidade de Rennes). De França, impõem-se-nos, sobretudo, os novos rumos de um pensamento autónomo sobre o político, de que destacaremos Simone Goyard-Fabre, professora nas universidades de Caen e Paris II, principalmenteem Philosophie Politique. XVIème-XXème Siècles. Modernité et Humanisme [1987], mas também nas mais recentes obras Qu’est ce quela Politique? Bodin, Rousseau et Aron [1992], e Éléments de Philosophie Politique [1996]. Outra teorização magnífica deve-se à professora de Paris X, Blandine Barret-Kriegel, em L’État et les Esclaves, de 1979, Les Chemins de l’État [1986], eLa Politique dela Raison e Propos surla Démocratie. Essais sur un Idéal Politique [1994]. Há, no entanto que referir novas procuras de radicação, principalmente as de Luc Ferry e Alain Renaut,em Philosophie Politique [três tomos de 1984-1985] eLa Pensée 68. Essai sur l’Anti-Humanisme Contemporain [1985]. Nessa linhagem se inscrevem autores mais recentes, como Olivier Beaud,em La Puissance de l’État [1994], Pierre Brunel, com L’État et le Souverain [1978], e, sobretudo, Nicolas Tenzer, do Institut d’Études Politiques de Paris, tantoem La Societé Dépolitisée. Essai sur les Fondements dela Politique [1990], comoem Philosophie Politique [1994].

Também Chantal Millon-Delsol, da Universidade de Paris XII,em Les Idées Politiques au XXème Siècle [1991], retoma o grande e perene modelo da reflexão francesa sobre a política, dedicando largas páginas à originalidade do corporativismo salazarista. Com efeito, a cultura francesa é um pouco mais vasta do que aquilo que certos intelectuais portugueses, inspirados pelo gauchisme, pela nouvelle droite ou pelos neoliberais, nos continuam a semear com algum atraso.

A França não é apenas o grupo de amigos que aplaudem Jacques Lang, que se pautam pelo enciclopedismo de Alain de Bénoist ou que continuam a repisar o propagandismo de Guy Sorman. Há um território bem mais vasto, tanto na reflexão sobre a política como nas várias áreas científicas da ciência política, nomeadamente o exemplo do espectador comprometido que foi Raymond Aron (1905-1983). No caso francês, importa salientar que o nome e o estilo da chamada sociologia política continuam a predominar. Aliás, segundo um inquérito levado a cabo pelo Institut d’Études Politiques de Paris, cerca de 42% das obras politológicas publicadas em França dizem respeito à sociologia política (isto é, à sociologia eleitoral, ao estudo das atitudes e dos comportamentos políticos, ao estudo dos partidos e da vida política), 23% à administração pública e às políticas públicas, 9% à história das ideias políticas, 7% à política comparada e 6% à teoria política, ficando os restantes 13% para a análise da política de outros países. Apesar de tudo, só a partir de 1985, com a publicação do Traité de Science Politique, dirigido por Jean Leca e Madeleine Grawitz, se estabilizou a consensualização de uma autonomia da disciplina, desencadeada a partir do gigantesco Traité homónimo de Georges Burdeau que foi sendo construído, durante vinte anos, a partir do pós-guerra.

Entre as obras mais recentes de sociologia política, destaca-se Dominique Colas, da Universidade de Paris-Dauphine, com Sociologie Politique [1994], para além do já clássico manual de Philippe Braud [1992]. Nesta senda incluem-se tanto os manuais dos anos setenta, de Maurice Duverger, R. G. Schwartzenberg, Jean-Pierre Cot/Jean-Pierre Mounier [1974], François Cazel/Pierre Birnbaum [1971], e Chemillier-Gendreau/C. Courvoisier [1971], como alguns outros desta década de noventa, com destaque para os de Jacques Lagroye [1991], Claude Leclercq [1994] e Catherine Rouvier [1995]. O modelo da Introduction àla Politique, em que continua a pontificar o manual de Charles Debbasch e Jean-Marie Pontier, ambos da Universidade de Aix-Marseille, reaparece, em 1996, com Dominique Chagnollaud, da Universidade de Paris II.

Numa perspectiva neoliberal importa também referenciar Philippe Bénétton que introduz no universo francês de ciência política as reflexões de Voegelin, Strauss e Hayek, enquanto que, com Pierre Birnbaum e Jean Leca, se assiste a uma superação do sociologismo sistemista norte-americano que ainda preponderavaem Maurice Duverger, Jean-William Lapierre e R. G. Schwartzenberg. Bertrand Badie, marcado por Max Weber e Stein Rokkan, introduz um novo estilo culturalista na política comparada, acrescentando alguma mais valia às análises de Almond, Powell e Verba. Pelo menos, supera-se o etnocentrismo da matriz norte-americana, acentuando-se a circunstância do factor religioso ter moldado os processos de diferenciação política no Ocidente, distinguindo-se os modelos marcados pelo Catolicismo romano, com Estado forte, dos marcados pela Reforma protestante, com Estado fraco. Se regressa o estudo da questão nacional e da identidade política  aliás, a nation par excellence não podia deixar de aprofundar o estudo da questão nacional neste tempo de pandemónio , dá-se também um retour de l’État, para utilizarmos o título de uma obra de Yves Cannac, e surgem inovadoras teorizações sobre o Estado de Direito, cultivando-se a tradição das grandes reflexões sobre o fenómeno político superior.

Os principais centros de investigação em ciência política continuam a ser as entidades herdeiras da École Libre de Sciences Politiques. Em primeiro lugar, temos a Fondation Nationale des Sciences Politiques, com destaque para o Centre d’Études et des Recherches Internacionales (CERI), com Bertrand Badie, Olivier Carré, Helene Carrère D’Encausse, Alfred Grosser, Jean Leca, Guy Hermet e Alain Rouquié, e para o Centre d’Études dela Vie Politique Française (CEVIPOF), com Jean Charlot, Pierre Favre, Jean-Luc Parodi, para além do Institut d’Études Politiques de Paris, gerido directamente pela mesma Fundação. Vem depois a a velha Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne, onde actualmente se destacam Pierre Birnbaum, Philippe Braud, Noelle Burgi, Jean-Marie Cotteret, Yves Déloye, Marcel Merle, Dominique Pélassy, Evelyne Pisier e Charles Zorgbibe.

Em Paris refiram-se também os departamentos de ciência políticaem Paris II e Paris IX-Dauphine, bem como o Institut d’Études Économiques et Sociales do Institut Catholique de Paris. Inúmeros outros centros são de assinalar, com destaque para os Instituts d’Études Politiques, fundados em 1945, como os de Estrasburgo, Bordéus, Grenoble, Lyon, Lille, Rennes, Aix-en-Provence e Toulouse, bem como para as Facultés de Droit et Science Politique de Caen, Reims e Rennes. A politologia francesa da actualidade, na sequência dos esforços de refundação de Maurice Duverger, Georges Burdeau e Marcel Prélot, e após o tratado organizado por Jean Leca e Madeleine Grawitz, assumiu uma espécie de autodeterminação face às influências anglo-saxónicas e tratou de retomar as grandes perspectivas da tradição cultural reflexiva, constituindo hoje uma fonte de inspiração para todos os espaços culturais que, como o português, devem aprofundar as raízes da respectiva autonomia sem se desenquadrarem do ritmo dos grandes líderes da investigação politológica mundial que, sem dúvida, continuam a ser os norte-americanos e os britânicos.