Ciência política e teologia

A homologia do sagrado e do profano. Dos reis taumaturgos e vigários de Deus às religiões civis ou seculares. Do Estado Igreja à laicização. A tensão entre o Estado Tradicional e o Estado Moderno (a tese de Julius Evola). A tensão entre o centro (o puro) e a periferia (o impuro). O sagrado como aquilo que não é discutido, mas que forma o plano de toda a discussão. A dessacralização contemporânea provocada pelo deicídio iluminista. A ligação entre a politicidade e a religião Sem cairmos no categórico da afirmação de Luc de Heusch, para quem a ciência política provém da história comparada das religiões (Pour une Dialectique dela Scralité du Pouvoir, 1962), temos de assinalar a íntima ligação entre a politicidade e a religião, desde a Cidade‑Estado que, na Grécia antiga, era também uma Cidade‑Igreja aos reis taumaturgos da Idade Média.

Pensando particularmente na caso português, temos de recordar a lenda do milagre de Ourique, verdadeiro mito fundacional da portugalidade que ainda hoje se inscreve no escudo nacional português. Como diz Georges Balandier a homologia do sagrado e do político só o é na medida em que estes dois conceitos são regidos por uma terceira noção que os domina: a de ordem ou de ordo rerum (Antropologia Política, p. 114). A relação entre o Estado e a Igreja. Não há dúvida que no contexto ocidental europeu o Estado nasceu como uma entidade ligada à Igreja, de certa maneira, legitimado pela Igreja, embora potencialmente autónomo relativamente à mesma entidade e, por vezes, em conflito com ela. A independência portuguesa, por exemplo, teve que ser reconhecida ou legitimada pela Santa Sé, mas a monarquia donde resultou, a monarquia asturo‑leonesa, herdeira da monarquia visigótica, estava intimamente ligada à Igreja.

Com efeito, pelo menos desde a conversão de Recaredo ao catolicismo, em 589, a referida monarquia dos visigodos se não se assumiu como teocrática estava eclesialmente condicionada tanto a nível da doutrina ‑ basta recordar a influência marcante das posições de S. Isidoro de Sevilha ‑ como a nível prático ‑ principalmente pelo papel institucional dos Concílios de Toledo, concilios nacionais da Igreja Católica, participados pela nobreza, onde eram eleitos os reis. O Estado como um substituto monoteísta. Compreende‑se, assim, que Pierre Legendre considere o Estado como entidade centralista que surgiu na Idade Média, mais precisamente, no século XII, como um presente da Igreja Católica e do direito canónico, sob o influxo do renascimento do direito romano. O mesmo Legendre refere, aliás, que o Estado Centralista seria um substituto monoteísta. Com efeito o poder político dos reis foi moldado à imagem e semelhança do Imperador romano, enquanto pontifice único, dando‑se, deste modo uma transferência para o Estado dos signos sagrados da omnipotência.