Ciência

Pinharada GomesDo latim scientia, tradução do nome grego mathêma. Esta, segundo Pinharanda Gomes (na imagem), corresponde a um triângulo cujos lados equivalem à dianóia (as ciências preparatórias da mathêma), a epistêmé (a teoria das ciências) e a téknê (ciências práticas ou aplicadas, tendo em vista fins concretos, que se subordinam a uma pragmática). Trata-se de um conceito anterior à noção platónica de epistêmé, conceito integrado, envolvendo a teoria e a prática das ciências. Aquela intenção de rigor e de objectividade que implica um esforço racional para substituir a opinião (dóxa) pelo conhecimento (episteme). Essa perspectiva que pretende libertar-se do contingente da opinião, procurando o verdadeiro, através da elaboração de um relato (logos) que, neste sentido, contrasta como o mítico (mythos). Um esforço que, contudo, não parte de uns quaisquer primeiros princípios, para atingir a conclusão. Bem pelo contrário, a investigação deve partir da opinião, pesquisando os topoi, os lugares comuns, a partir da linguagem e das opiniões dos homens comuns. Deve partir da realidade, das circunstâncias históricas, do contingente. Assim se simbolizava o ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de todas as coisas, a passagem do exotérico, do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico, isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado. Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Voegelin, não é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana em sociedade; é uma tentativa de formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido de experiências. Acresce que, neste nosso tempo de aldeia global da comunicação, onde o de quod libet se processa através da recepção quase passiva dos mass media, a universidade tem de assumir tanto a função de ensinar a dar voz activa ao auditório como também a de ajudar a transformar as opiniões dispersas num conhecimento científico, desse que, segundo Jürgen Habermas, é capaz de ajustar a alma ao movimento ordenado do cosmos às proporções do universo, através daquilo que Ortega y Gasset referia como o ensimesmamento.

Esforço racional para substituir a opinião (doxa) pelo conhecimento (episteme). Impõe: distância e objectividade; observação e experimentação; formalização e sistematização.