Cidade

Cidade antiga - Fustel de Coulanges consagrou com este nome a polis grega. A Cidade-Estado ou Cidade-Igreja, marcada por um totalismo holístico, onde não havia distinção entre o sagrado e o profano: a cidade foi fundada sobre uma religião e instituída como uma Igreja, tendo omnipotência e poder absoluto. A polis era entendida e assumida como unidade substancial. — Evolução real da polis grega (a polis como mistura da acropolis — a alta da cidade onde estava instalado o palácio do rei e o santuário — e da campina, asty, formada por várias aldeias destinadas à produção agrícola. — O conceito romano de civitas ou res publica, como entidade não distinta dos cidadãos. O processo histórico de Roma (família extensa, gens — conjunto de várias famílias sujeitas a uma autoridade comum, em nome de uma pretensa descendência comum — curia — conjunto de várias gentes que abandonaram os respetivos cultos domésticos e passaram a fazer celebrações a uma divindade superior —, tribo — unidade mais vasta, ainda de origens religiosas — e civitas). — A formação do Imperium Romanum.

Cidade de Deus - Santo Agostinho distingue entre a civitas terrena e a civitas diaboli. As duas cidades que têm, em Adão, uma origem comum, mas que se separaram quando Caim matou Abel. Duas cidades de homens, aliás, dado que a civitas Dei constitui algo que circula na civitas diaboli ou cidade terrena. A primeira fundada pelo amor do homem sobre si mesmo, com desprezo de Deus; a segunda, pelo amor de Deus, levado até ao desprezo de si mesmo. Uma distinção paralela à que faz entre uma civitas imperans, uma cidade que comanda segundo as leis, e uma civitas imperiosa, uma cidade tirânica que é reflexo de paixões desenfreadas.

Cidade da obediência e cidade do comando -  JOUVENEL, B.,

Cidade Pluralista - Conceito de Jacques Maritain onde procura conciliar-se a perspetiva orgânica do tomismo, nomeadamente a ideia de unidade de ordem, com as conceções democráticas pluralistas. A cidade pluralista não se reduz à existência da autonomia administrativa e política das unidades regionais do Estado, impondo a admissão da heterogeneidade orgânica da estrutura da sociedade civil, enquanto sinónimo de sociedade política. A unidade de ordem ou de orientação resulta do bem comum, de uma aspiração comum. A unidade da cidade pluralista é uma unidade mínima que garante as fraternidades cívicas, as formações independentes do Estado e apenas submetidas às disposições genéricas sobre a liberdade de associação.

Cidade-Estado - Designação habitual dada à polis grega. Mas a utilização retroativa do conceito de Estado pode levar a algumas confusões. Com efeito, a polis tanto era uma Cidade-Estado como uma Cidade-Igreja, dado que a religião era, então, uma parcela da política. Por outro lado, a polis, ao contrário do Estado Moderno era uma entidade construída de cima para baixo, sendo quase um sinónimo de democracia, segundo os conceitos atuais, onde, em vez do L’État c’est moi, o político é de tout le monde., 71, 477.

Cidade do Sol [1602] – Campanella, Thomasio A Città del Sole, ou Civitas Solis Poetica Ideal Republicae Philosophicae é escrita em 1602 e publicada na sua versão latina em Utrecht em 1643. Aí se descreve uma república filosófica, onde os habitantes são guerreiros, mareantes e agricultores, mas não comerciantes. A obra assume a forma de diálogo entre um comandante genovês e o grão-mestre da ordem dos hospitalários, onde se narra uma viagem até à ilha da Taprobana onde se descreve a visita a uma cidade ideal, com sete milhas, dividida em sete parte, constituídas por sete zonas circulares concêntricas. A cidade é governada por um príncipe-sacerdote, dito Sol (Hoh) ou Metafísico, eleito com base na sabedoria. Cabe-lhe um poder absoluto tanto no aspeto temporal como no espiritual, sendo assistido por três grandes chefes: Pon, o poder, com funções militares; Sin, sabedoria, controlador das artes liberais e mecânicas e Mor, o amor, controlador da pedagogia e com funções de vigilância de costumes, nomeadamente quanto ao controlo sexual. O chefe é considerado como um grande pedagogo, ou grande educador. Proclama-se que o amor deve combater e vencer todas as formas de divisão, de dispersão, de oposição e defende-se a necessidade da humanidade (… ) formar uma monarquia universal, governada por um chefe único, simultaneamente rei e sacerdote, assim se reencontrando o estado primitivo, natural e divino. Os solários vivem em regime de ditadura da virtude, com comunhão geral de bens, onde também vigoram leis que impõem uniformidade tanto no vestuário como na própria alimentação. O cuidado com as normas higiénicas tem em vista o aumento da duração da vida e são estritamente controladas as próprias atividades sexuais. Com efeito, a utopia política imagina sempre uma sociedade totalitária onde se impõem comportamentos uniformizados pela repressão em nome da virtude, num terror salvífico que há-de ser tentado tanto por Robespierre como pela revolução cultural de Mao Tse Tung e que tem certas coincidências com modelos inquisitoriais e com a república dos santos de Cromwell. Demonstra-se assim o perigo dos preservadores da virtude se imiscuirem nas regras do quaotidiano, do vestuário ao sexo, da higiene à alimentação, como parece ocorrer actualmente com os puritanos do politically correct das actuais democracias.