Caráter nacional português

Caráter nacional português Do gr. charactér, gravar, coisa gravada. Jorge Dias tentou ensaiar uma síntese da personalidade básica dos portugueses em Os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa, Coimbra, 1955; Estudos do Caráter Nacional Português, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1960 ( há também uma edição do Centro de Estudos de Antropologia Cultural da Junta de Investigações do Ultramar, 1971) e O Caráter Nacional Português na Presente Conjuntura, in BAICP, nº 4, 1968, pp. 231-248. Para ele, o homem português é: 1º- Um misto de sonhador e de homem de ação, ou melhor, um sonhador ativo, a que não falta certo fundo prático e realista. É por isso mais idealista, emotivo e imaginativo do que homem de reflexão. 2º- Profundamente humano e sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas ferido no seu orgulho pode ser violento e cruel. A religiosidade apresenta o mesmo fundo humano peculiar do português. Não tem caráter abstrato, místico ou trágico próprio da espanhola, mas possui uma forte crença no milagre e nas soluções miraculosas. 3º-Tem vivo sentimento da natureza e um fundo poético e contemplativo estático, faltando-lhe a exuberância e alegria espontânea e ruidosa dos povos mediterrânicos. 4º-Individualista, com grande fundo de solidariedade humana. 5º-Não tem sentido de humor, mas é dotado dum forte espírito crítico e trocista e duma ironia pungente. 6º-Expansivo e dinâmico. 7º-Afectivo, bondoso e amoroso. 8º-Avesso às grandes abstrações e às grandes ideias que ultrapassam o sentido humano. 9º-Perante as grandezas e os mistérios da natureza que foram pouco a pouco descobrindo, nasceu nos portugueses uma atitude especial, não destituída dum certo fundo místico-naturalista, com tintas de panteísmo não filosófico. Como refere o mesmo autor, na última obra citada, p. 244, para o português “o coração era a medida de todas as coisas”, tal como para o alemão é a cultura, para o francês, a razão, e para a american way of life, o time is money. No português existiria “uma enorme plasticidade humana e invulgar sentido ecuménico” (p. 237), uma predisposição para “aceitar de maneira natural as chamadas culturas primitivas”(p. 238), marcada pelo princípio católico da renúncia aos bens terrestres como meio de alcançar a vida eterna (p. 239).

A perspetiva de Miguel de Unamuno

Noutra perspetiva, Miguel de Unamuno considera que “o povo de Portugal é triste, mesmo quando sorri… É de suicidas o povo de Portugal, talvez ele seja um povo suicida. Para ele, a vida não tem sentido transcendente”( in Carta a Manuel Laranjeira de 1908, in De Fora para Dentro, Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/ Edições Afrodite, 1973, p. 159). Noutro lugar, considera que “a mansidão, a meiguice portuguesa só se encontra à superfície; raspai-a e logo haveis de encontrara uma violência plebeia que chegará a assustar-nos” (in Por Tierras de Portugal y España, 1908, op. loc., cit., p. 167), concluindo que “o português é constitucionalmente um pessimista”(id. p. 171)

1Sobre a matéria, ver tb. MARIA DE LURDES BELCHIOR, Sobre o Caráter Nacional ou para uma ‘Explicação’ de Portugal. Ensaio, in Nação e Defesa, Ano VI, Jan-Mar, 1982, pp. 11-31; TERESA BERNARDINO, O Patriotismo, o Futuro e Portugal, in Nação e Defesa, Ano V, nº 14, Abr-Jun, 1980, pp. 93-102; MIGUEL ESTEVES CARDOSO, Misticismo e Ideologia no Contexto Cultural Português : a Saudade, o Sebastianismo e o Integralismo Lusitano, in Análise Social, Vol. XVIII, 1982, pp. 1399-1408; A Ideia de Potugal e o Sentido Moderno de Patriotismo, Conferência na Fundação Século XXI, em 12 de julho de 1987; MANUEL BRAGA DA CRUZ, Nacionalismo e Patriotismo na Sociedade Portuguesa Atual. Alguns Resultados de um Inquérito, in Nação e Defesa, nº 49, Jan-Mar, 1989, pp. 11-32 e JOSÉ MANUEL DA SILVA PINTO, A Sociedade Portuguesa Atual. O Nacionalismo e o Patriotismo, id., pp. 33-75.