Anaciclose

cíceroDo grego anakylitikos, o que se pode virar, isto é, o que se pode ler da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. O nome tem sido usado para qualificar a teoria cíclica da história, segundo a qual os regimes passam de uma forma a outra, retornando finalmente ao seu ponto de partida. Isto é, os regimes sucedem-se necessariamente, imbricando-se uns nos outros para voltarem ao começo.

Segundo os clássicos gregos, a monarquia degenera em oligarquia, a que se sucede a democracia, o governo dos pobres contra os ricos, que, depressa, é dominada pelo cesarismo e, em seguida, pela tirania.

Já Cícero (na imagem), na procura do justo centro e da recta ratio, considerava a res publica como a mistura da libertas do povo, da auctoritas do Senado e da potestas dos magistrados, essa forma de governo que nasce das três reunidas. Depois, São Tomás de Aquino defende uma politia bene commixta, misturando um só a presidir (unus praest), com os que estão na governação a mandar segundo a virtude (multi principantur secundum virtutem) e com o povo a eleger os detentores do principado (ex popularibus possunt eligi principes). Uma perspetiva que vai influenciar o inglês John Fortescue, (1394-1476), para quem há um regimen politicum, onde o rei não pode governar o seu povo senão mediante leis com as quais o povo está de acordo, bem diferente de um mero regimen regale, como vê no modelo francês, onde o rei pode governar o seu povo através de leis que ele mesmo faz.

Do mesmo modo, o francês Claude de Seyssel, em De la Monarchie de France, onde qualifica a monarchie reglée como um regime misto.

O sistema da monarquia limitada pelas ordens, defendido por São Tomás, equivale ao regime misto, à mistura de monarquia, aristocracia e democracia. Alguns qualificam-na como monarquia estamental. Erasmo, na Institutio Principis Christiani fala numa monarquia limitada, controlada e temperada pela aristocracia e pela democracia, onde os diversos elementos de equilibram uns aos outros.

Era a perspetiva de Cícero e de São Tomás, algo que vai ser retomado por Montesquieu, Constant e Tocqueville.